A geração que divide a conta e o quanto ela incomoda

A geração que divide a conta e o quanto ela incomoda

14 de agosto de 2017 0 comentários

PSICOLOGIA EM PAUTA

Não seria leviano ou precipitado definir a geração de casais que têm, hoje, de 20 a 30 anos como “a geração que divide a conta”. Um exemplo simplório, mas que muito representa simbolicamente sobre o novo molde dos relacionamentos modernos. Cada vez mais ambos os sexos têm optado por deixar de lado o controverso “senso de cavalheirismo” e migrar para uma relação mais igualitária, na qual a mulher tem mais liberdade em todos os sentidos (financeira, comportamental e ideologicamente).  Apesar do tímido avanço, o casal moderno ainda carrega pesado fardo herdado dos moldes tradicionais.

Sobre o tema, a reportagem conversou na última segunda-feira, 7, Cláudia Gelernter, Psicóloga clinica com especialização em Tanatologia pela USP, professora de Pós Graduação na ULP, palestrante e seminarista. Em entrevista, explanou sobre os pesos psíquicos que podem acometer o casal moderno. Confira:

 

JTV: Em sua opinião, quais os desafios que a mulher moderna, nos moldes descritos acima, enfrenta psicologicamente em um relacionamento afetivo? A tal independência pode assustar os parceiros, por exemplo?

R: É bastante interessante esta analogia sobre “dividir a conta”, mas devemos lembrar que, no mesmo cargo, a mulher ainda ganha menos e sim, ainda é mais cobrada pela sociedade a fim de que dê conta de mais demandas que o homem, o que torna a prática da divisão somente uma luta e não uma conquista, propriamente dita, sob o ponto de vista social. O casal pode e deve adotar a postura de igualdade em casa, mas a equidade nem sempre acontece da porta para fora, o que traz determinados pesos psíquicos para a mulher.

Por outro lado, a maior parte dos homens ainda não vem sendo educados por suas mães para perceberem a mulher como um ser possuidor dos mesmos direitos e deveres, o que frequentemente os assusta, quando diante de uma mulher que já caminha dentro destes padrões.

 

JTV: Pela outra faceta da relação: quais conflitos encontrará o parceiro? 

R: Os amigos, parentes e conhecidos deste parceiro podem julga-lo de maneira injusta, pois eles representam uma “perda” para os homens em geral. Certa vez escutei de um conhecido do meu marido que ele era péssimo exemplo para a “classe” masculina, já que também trabalhava em casa e dividia comigo as tarefas do cotidiano.

Também vale dizer que nesta configuração, muitas mulheres tiveram de sair de uma certa comodidade e aprender sobre assuntos que antes eram costumeiramente masculinos.

 

JTV: Quais os efeitos psicológicos nos filhos do casal, ao crescer já em contato com esse novo molde afetivo? As gerações poderão se comportar de maneira diferente das que tiveram outro tipo de vivência, por exemplo?

R: Assim que alteramos costumes sociais, muitas vezes repetidos ao longo de milênios. Inegável a influência dos pais e cuidadores no psiquismo dos filhos e agregados. Certa vez li que as palavras inclinam, mas os exemplos arrastam. É isso. Crianças que, independentemente do gênero são educadas com equanimidade, vendo pais abraçando atividades da casa e fora de maneira igualitária, com parceria e responsabilidade, tornam-se pessoas justas e capazes de perceber seu lugar no mundo e também os dos demais.

 

JTV: O casal moderno, bem-resolvido e livre das regras estabelecidas pela sociedade nos tempos idos como a de que a tarefa de pagar a conta no restaurante seja do homem pode sofrer “preconceito” de outros casais? Isso pode virar um conflito maior?

R: Acredito que qualquer “tem de ser deste jeito”, engessa a relação. Nem tem de ser sempre dividida a conta em 50% cada, nem mais para um, ou para outro… O bom senso deve permear as relações, de modo geral. Tudo bem a mulher abraçar atividades onde se sinta mais à vontade, dentro de suas tendências particulares (e não de gênero), assim como o homem. A questão é que este novo paradigma vem caminhando para ficar, mas ainda está em trânsito, ou seja, o pensamento de que a mulher possui os mesmos direitos e deveres já não é mais algo tênue, mas uma realidade fatal, que norteará as ações das próximas gerações.

Contudo, como toda mudança de paradigma, o anterior (em vigência) luta com todas as forças para se manter, muita vez buscando nos pensamentos mais fundamentalistas uma tábua para salvar-se. Entretanto, dia virá em que tanto a causa feminina como a animal serão vistas como parte de um passado vergonhoso e ignorante, assim como hoje falamos a respeito da escravidão dos negros, embora a questão da escravidão criminosa ainda exista, em muitos pontos do planeta.

 

 “O pensamento de que a mulher possui os mesmos direitos e deveres já não é mais algo tênue, mas uma realidade fatal, que norteará as ações das próximas gerações”, afirmou a psicóloga Cláudia Gelernter, entrevistada desta semana

 

 

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