“Ser de esquerda é lutar pelo mínimo de desigualdade e pelo máximo de diversidade”, afirma AlexandrePadilha

“Ser de esquerda é lutar pelo mínimo de desigualdade e pelo máximo de diversidade”, afirma AlexandrePadilha

12 de Março de 2018 0 comentários
“Fico até arrepiado quando vejo o clamor pela volta do regime militar porque a maioria das pessoas que falam isso não tem a menor ideia de como foi esse período”, declarou o ex-ministro que teve o pai exilado

“Fico até arrepiado quando vejo o clamor pela volta do regime militar porque a maioria das pessoas que falam isso não tem a menor ideia de como foi esse período”, declarou o ex-ministro que teve o pai exilado

Ex-ministro da Saúde visita Valinhos como pré-candidato a deputado federal e compara atual cenário político eleitoral à campanha de 1989


Por Bruno Matheus

Responsável por implantações bastante presentes na vida da população como as UPA’s (Unidade de Pronto Atendimento) 24 Horas, Programa Mais Médicos e Farmácia Popular, Alexandre Padilha, que foi ministro da Saúde de 2011 a 2014, visitou Valinhos esta semana. Recebido na redação do Jornal Terceira Visão, o médico paulistano de 46 anos teve ainda outros cargos de destaque como ministro das Relações Institucionais e coordenador político da Presidência no segundo mandato de Lula.

Filiado ao PT há quase 30 anos, ele atualmente leciona na área de saúde em três faculdades: Unicamp – onde se formou em Medicina -, São Leopoldo Mandic e Uninove. Entrevistado pela reportagem do JTV, Padilha abordou vários assuntos, desde suas motivações de sua candidatura, ligações com Valinhos e região, saúde pública, febre amarela e atual panorama político do país pré-eleições.

Pré-candidatura a deputado federal

“O que me motiva a ser candidato a deputado federal é, primeiramente, que quando a gente olha para o Congresso Nacional não há um representante da saúde pública que tenha este tema como prioridade. É muito importante que as pessoas saibam que a gente não vai conseguir mudar nosso quadro clínico sem reverter no Congresso Nacional uma medida que o Michel Temer implantou que congela por 20 anos os recursos da saúde. Programas como o Mais Médicos e Farmácia Popular por exemplo, que foram criados por mim, estão em risco com esse congelamento do Temer.

O Brasil, depois do turbilhão político que passou, precisa de renovação política. Com a experiência que tenho, posso elaborar projetos relevantes e contribuir sobretudo para esta região, onde tenho ligações permanentes. Me formei médico na Unicamp, onde dou aula (e também na São Leopoldo Mandic), e tenho aqui em Valinhos companheiros da mais alta valia que estão reorganizando o PT e tem uma história de luta na cidade”.

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Saúde pública

“A atual situação da saúde pública, que é a maior preocupação dos brasileiros, é muito grave. Isso porque ela é a combinação de um Governo Federal que não tem o menor compromisso com a população, de um Governo do Estado que sempre foi omisso em apoiar os municípios e uma tragédia na gestão municipal. Ou seja, é uma combinação trágica e nociva à saúde”.

Atual panorama político do país

“O golpe feito pelo Temer e Rodrigo Maia, com apoio do PSDB, tem como marca rasgar a Constituição brasileira. A manobra retirou direitos trabalhistas e querem mudar a aposentadoria. O Temer rasgou a nossa Constituição e feriu a democracia. Só é possível a gente sonhar com saúde para todos e educação de qualidade se no Congresso Nacional aprovarem leis que revoguem essas medidas tomadas pelo Temer. Nós temos que recuperar os direitos dos trabalhadores e ampliar recursos para a saúde”.

Febre amarela

“Desde o final de 2015, 2016, já haviam sinais de disseminação da febre amarela no estado de São Paulo. Diante disso, técnicos já defendiam uma ampla campanha de vacinação em toda a RMC. Mas isso ficou paralisado porque tanto o governador não cobrou do Ministério, como o Ministério não tratou o caso com a devida importância. Tanto que em 2017 o Ministério declarou que tinha acabado o surto de febre amarela no país, o que foi um absurdo. Esta acabou sendo a prova maior de que a atual estrutura da vigilância da doença foi desmontada pelo Governo Federal. E aí os casos cresceram e se espalharam. Tudo isso foi somado à expansão da ocupação urbana que Valinhos também vive com loteamentos e condomínios cada vez mais perto da mata. Toda essa agressão ao meio ambiente acaba voltando para nós de alguma forma, pois vamos reduzindo o espaço da natureza e o mosquito se espalha por aí.

Também há a irresponsabilidade do Governo Federal de não produzir vacina na quantidade que o país precisava. A vacina é nossa. É um orgulho brasileiro e foi expandido na minha época como Ministro da Saúde a ponto de exportar para o mundo. Inclusive, a OMS (Organização Mundial de Saúde) compra essa vacina do Brasil pela qualidade que ela tem e infelizmente, quando o Ministério decreta que acabou o surto, você tem uma redução da produção dessa vacina e isso fez com que a população não tivesse vacina suficiente. Queria orientar a população para que tome a vacina. Isso é muito importante e também ficar atento às contraindicações”.

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Fidelidade partidária

“As pessoas podem ter vários motivos para deixar um partido. Eu prefiro colocar os projetos coletivos à frente dos individuais. A minha história com o PT tem a ver com a história da região. Em 1989 vim fazer Medicina na Unicamp, onde comecei a participar dos movimentos estudantis. Não acho que ninguém muda nada sozinho, ainda na mais na política. Vejo que muita gente vem para o PT na bonança e quando aperta, em tempos difíceis, troca de partido. Para mim, ser de esquerda é você lutar pelo mínimo de desigualdade e pelo máximo de diversidade. É uma luta para que o país seja menos desigual e mais diverso”.

 

Clamor por volta da ditadura militar

“Eu fico até arrepiado porque a maioria das pessoas que falam isso não tem a menor ideia do que foi o regime militar no país. Eu, por exemplo, só pude voltar a abraçar meu pai quando tinha oito anos porque ele foi obrigado a se exilar. Recentemente chegamos ao caso do ministro da Educação querer proibir cursos nas universidades. Foi o período que teve a maior corrupção no país, e que era escondida. Foi quando teve o maior crescimento da desigualdade social, a criatividade cultural e artística foi estagnada por causa da censura e milhares de famílias sofreram com a tortura”.

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Intervenção no Rio de Janeiro

“Me preocupa muito também acharem que medidas paliativas como essa intervenção militar no Rio de Janeiro vão resolver os problemas de segurança pública. Isso se resolve com políticas sociais às famílias que vivem na área de influência do tráfico, combinado obviamente com uma polícia preparada e com monitoramento das fronteiras do país. Aqui em São Paulo deixou-se o PCC crescer e comandar o crime de dentro das penitenciárias. Precisamos enfrentar o comando do tráfico. Nós precisamos também discutir o tema das drogas. O mundo inteiro está discutindo isso. Vários países que fizeram mudanças legais sobre isso tiveram reduções de crimes”.

Eleições 2018

“O ano de 2018 vai ser um bem atípico porque é uma disputa eleitoral num cenário de absoluta falta de normalidade, onde todas as regras estão sendo quebradas. Uma delas é querer impedir que o Lula seja candidato sem ter nenhum crime comprovado contra ele. Quem deu o golpe e semeou essa intolerância ao Lula e ao PT está colhendo agora o Bolsonaro, pois não conseguiram ter um candidato que lidere as pesquisas do seu lado. Alckmin e o PSDB têm uma imagem desgastada, então ficam procurando uma candidatura de alguém de fora da política para ver se emplaca. Tentaram o Luciano Huck, daqui a pouco vão tentar a Xuxa e depois sei lá quem vão tentar. Isso porque sabem que esse governo que aí está, que é um governo anti-povo, que coloca o gás de cozinha no preço que está, que retirou direitos dos trabalhadores, tirou Fies e pró-Uni dos estudantes, não consegue uma liderança com o povo, nem a construção de uma candidatura. Mas, no geral, a disputa está bastante polarizada e o cenário se apresenta bem indefinido, o que me lembra muito a campanha de 1989”.

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