Nutricionista destaca que os 1000 primeiros dias do bebê são significativos no quesito alimentação

Por Thaís Ferrari

A obesidade infantil é uma condição muito comum no Brasil, são mais de dois milhões de casos por ano. De acordo com uma projeção realizada pelo Ministério da Saúde, se os índices continuarem crescendo, no ano de 2022 o número de crianças obesas no país deve ser o dobro do que o registrado em 2013. Em conversa com a nutricionista Carolina Albuquelque, 28, a profissional explica que o distúrbio nunca é culpa das crianças e da família, pois envolve todo um contexto mais complexo.

Por ser multifatorial, o tratamento de uma criança obesa não se restringe a simplesmente impedir que ela consuma determinados alimentos, principalmente nos casos em que os produtos processados fazem parte da rotina e do ambiente familiar, “vai além dos nutrientes e de uma questão de soma e subtração de gasto energético”, esclarece. Além disso, as cantinas escolares comercializam alimentos não saudáveis, local em que a criança passa pelo menos quatro horas por dia; sem falar das propagandas, que induzem o consumo. “Ação efetiva é a gente envolver toda a sociedade na proteção e cuidado da criança, e a partir disso ter diversas políticas públicas que aumentem a possibilidade dessa criança fazer mais esportes e ter uma alimentação mais saudável”, completa a nutricionista.

Carol evidencia que a nutrição está totalmente ligada com quem a pessoa é, suas emoções, vontades e a cultura de um modo geral, “quando eu vou pensar em um tratamento em nutrição, preciso repensar tudo isso”, explica, deixando claro que cada organismo responde de uma maneira. Um primeiro passo no tratamento da obesidade infantil é conhecer suas rotinas, onde a criança está inserida, como a família lida com a alimentação, qual escola ela estuda, onde passa a maior parte do tempo, e também compreender como ela come, e não somente o que come, “preciso entender por que ela come, se ela come por que está no horário, e se às vezes come sem fome, ou então se ela come por que ela fica triste”.

Outra orientação da nutricionista é que a família se organize e insira as crianças no âmbito da alimentação saudável. “Um ótimo investimento na infância é passar com um nutricionista materno infantil, especializado nas crianças, nas gestantes e nas tentantes; o interessante disso é que ele entende o que cada faixa etária dentro da infância precisa”, conta Albuquelque. Ela defende a necessidade de se alimentar corretamente, ter conhecimento das novas pesquisas científicas, dos avanços e das novidades na área. “Em questão de prevenção, nós precisaríamos resgatar o consumo dos alimentos mais in natura possível”, destacando que o guia alimentar da população brasileira foi considerado um dos melhores do mundo, já que foca no consumo de frutas, verduras, legumes, carnes, leites, ovos, cereais, grãos. “A melhor forma para a gente se prevenir da obesidade é se reconectar com esses alimentos, fazer uma alimentação mais natural, mais saudável, e a prática de atividade física, menos tempo de computador, de TV, mais tempo ao ar livre, brincando”, relata.

Algumas crianças têm maior pré-disposição à obesidade, que é determinada por fatores genéticos, “hoje já é sabido que a alimentação da mãe e do pai, mesmo antes desse filho ser concebido, vai ter influências na programação metabólica da criança, e isso influencia, por exemplo, à pré-disposição à obesidade”, justifica. Ela acentua a importância dos 1000 primeiros dias do bebê, que corresponde à idade de gestação mais os dois primeiros anos de vida, uma fase significativa se tratando de alimentação, que previne o aparecimento de doenças futuras.

Visto isso, como encarar o processo de mudanças?

– Reorganizar a rotina da família inteira e o contexto alimentar, conscientizando que alimentação saudável é um determinante de maior qualidade de vida;

– Conhecer os alimentos in natura e consumi-los;

– Substituir os produtos ultraprocessados, como salgadinhos e bolachas recheadas, por lanches naturais, frutas, entre outros;

– Se reaproximar da cozinha e realizar receitas diferentes;

– Levar as crianças à feira e ao supermercado, repassar responsabilidades, dar autonomia;

– Oferecer e buscar opções mais saudáveis mesmo na rotina corrida;

– Ser exemplo para as crianças.

“Falar de alimentação saudável na infância é prevenir diversas outras doenças na vida adulta, principalmente nos 1000 dias, mas ainda que tenha passado esta fase é sempre tempo de mudança, mesmo adulto”.

Atitude em Nutrição

Projeto de Educação Alimentar e Nutricional Infantil, trabalhando com as crianças diversos tipos de atividades: jogos, brincadeiras, leituras, oficinas culinárias, sempre na perspectiva de estimular a aproximação delas com os alimentos in natura, para que os conheçam e criem melhores relações com a comida. As nutricionistas do projeto atuam em escolas de Campinas e região, além de unidades em São José e entorno; também em centros de recreações, nas práticas de oficinas culinárias. “A nossa proposta é que realmente a criança possa criar uma melhor relação com a comida através do brincar. Essas aulas são muito divertidas, lúdicas, tem bastante contato sensorial, podem pegar os alimentos, cheirar, podem apertar, se é duro, se é mole, que cor que tem, a gente estimula bastante esse contato da criança com o alimento, sem necessariamente ser um momento de comer. No final da aula a gente sempre tem uma degustação com aquele alimento”, finaliza Caroline Albuquelque, nutricionista e criadora do Projeto Atitude em Nutrição e dos materiais educativos da Jogos de Nutrir. Outras informações sobre o Projeto Atitude em Nutrição podem ser obtidas pela página do Facebook @atitudeemnutricao ou pelo site atitudeemnutricao.wixsite.com/nutricaoescolar.

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