Pediatra explica em quais situações criança deve ser levada ao pronto-socorro

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Visita a ambientes hospitalares devem ser bem avaliadas para não submeter crianças a riscos

Não é raro os pais de crianças pequenas se depararem com a seguinte dúvida: é caso de levar meu filho ao pronto-socorro? Nessa hora, é importante avaliar se os riscos de submeter a criança ao ambiente hospitalar realmente compensam. Para ajudar os pais nesta decisão, o pediatra Sidney Volk, da Pedline, elaborou uma série de orientações práticas.

“Em primeiro lugar: hospital é um ambiente insalubre, potencialmente contaminado, repleto de pessoas doentes e que, por diversos motivos (dor, manipulação por pessoas estranhas, etc) pode ser traumático para a criança. Sendo assim, hospital não é lugar para criança que não esteja doente ou não tenha um problema sério para resolver – como uma cirurgia eletiva, por exemplo”, destaca.

De acordo com Volk, o ideal, sempre que a criança está doente, é que o pediatra de confiança, aquele que realiza o seguimento de puericultura, seja consultado sobre o que deve ser feito. “Ele conhece a maneira como a família lida com as situações normais e anormais da vida da criança e sabe qual o limite que cada família consegue atingir no cuidado. Além disso, sabe sobre o histórico e passado médico e, dessa forma, normalmente consegue tomar uma decisão mais assertiva sobre a conduta em cada caso”, comenta. “O médico do pronto-socorro, por outro lado, não conhece nem a família, nem a criança. Além disso, terá pouco tempo de contato para estabelecer uma relação médico-paciente adequada, visto que a consulta de pronto socorro normalmente é muito breve, assim como não conseguirá desenhar um histórico de saúde desse paciente”, complementa.

Seguem algumas dicas sobre quando ir ou não ir ao pronto-socorro:

  1. Febre é um sinal comum na maioria das doenças em pediatria, desde as mais simples, até as mais graves. A febre é uma medida de defesa do nosso organismo a alguma coisa que não vai bem. Não precisa haver febrefobia – medo da febre. Medique com o antitérmico habitualmente utilizado pela família, normalmente paracetamol, dipirona ou ibuprofeno, ou utilize medidas físicas, como dar um banho morno prolongado. Caso a criança esteja bem, sem qualquer sintoma concomitantemente, na verdade nem é necessário medicar a febre. Nós medicamos porque ela normalmente causa mal-estar, entretanto, se a criança nada sentir, a febre estará apenas atuando em sua função primordial, ajudando o organismo a responder a algum tipo de agressão. Não há necessidade de medo de convulsão febril. Somente uma parcela pequena das crianças são susceptíveis a apresentar convulsão em vigência de febre e não há nada que podemos fazer para prever se isso ocorrerá ou não. Caso ocorra, procure atendimento, mas fique calmo, a convulsão febril é benigna e a melhor forma de controlá-la é abaixar a temperatura corporal. Como a febre é um sinal muito inespecífico, ela isoladamente não irá indicar qual o problema. Ou seja, espere aparecer algum outro sintoma além da febre. Se a criança está bem, alimentando-se, brincando, animada, sem cansaço ou dificuldade para respirar, não é necessário avaliação em pronto-socorro! Na grande maioria dos casos, a febre desaparece dentro das primeiras 72 horas (por isso a famosa frase: volte daqui a 3 dias se persistir a febre), sem que seja necessária qualquer medida. Mas afinal… quando levar ao pronto-socorro para avaliar a febre? Quando ela vier acompanhada de sinais de gravidade, como: manchas vermelhas no corpo, dores intensas, sonolência, recusa alimentar severa (lembrar que todos ficamos meio sem apetite quando estamos doentes), prostração/adinamia intensa mesmo quando a febre abaixa, alucinações ou alteração do estado mental da criança ou caso essa febre esteja perdurando mais do que 3 ou 4 dias. Os bebês com menos de 3 meses, em especial os recém-nascidos, devem sempre ser avaliados por um médico caso haja febre. As crianças com situações especiais, como aquelas portadoras de algum tipo de imunodeficiência, também devem receber atenção especial nesses casos.
  2. Vômitos e diarreia. A gastroenterite viral aguda é muito frequente, especialmente nos períodos mais quentes do ano – a famosa “virose”. Nesses casos, o principal risco é a desidratação, e todo o tratamento objetiva evitar que ela ocorra! Ofereça líquidos de maneira fracionada à criança, em “porções de passarinho” – pouca quantidade, diversas vezes. Não se preocupe com que ela coma – provavelmente ela não vai querer comer. Ofereça alimentos leves e não laxativos, mas apenas na quantidade que a criança aceitar, sem forçar, também de maneira fracionada, em pequenas porções. Normalmente estes quadros são autolimitados e se resolvem em 4 -7 dias. Motivos para procura do pronto-socorro: sinais de desidratação (olhos encovados, boca seca, diminuição do volume de urina, sonolência), dor abdominal intensa, aparecimento de sangue no vômito ou nas evacuações, sinais de toxemia (febre alta, prostração) ou aquelas crianças que não estão tolerando nenhuma quantidade de líquido ou vomitando qualquer porção que lhe seja ofertada, pois ela irá desidratar. Caso contrário, evite a visita ao PS.
  3. Busca de atestados – de maneira alguma o pronto-socorro é o local para essa demanda. Agende uma consulta!
  4. Controle de peso. Salvo situações muito especiais, em que o médico faça essa solicitação, não vá ao pronto-socorro para isso!
  5. Convulsões – exceto aquelas crises de pacientes com epilepsia, em que as famílias já estão orientadas, a ocorrência de uma crise convulsiva é motivo para a visita ao PS.
  6. Traumatismo craniano – toda criança bate a cabeça em algum lugar várias vezes durante a infância. Na imensa maioria das vezes (ainda bem!), esses traumas não precisam de avaliação. São motivos para ida ao PS: perda de consciência, amnésia (perda de memória), convulsão pós trauma, alteração comportamental, vômitos que não param, sonolência excessiva e anormal. O período crítico de observação são as primeiras 12 – 24 horas. Nesse período, é natural que a criança tenha horas de sono (afinal todos nós dormimos algumas horas dentro de 1 dia) e somente o sono anormal deve ser valorizado ou caso ele venha acompanhado de alguns dos outros sintomas acima. Lembro que a ida ao PS para fazer um “RAIO-X” só para garantir não é necessária. Quase na totalidade dos traumatismos cranianos, o Raio-x não tem qualquer indicação, ou seja, não deverá ser realizado.
  7. Queixas crônicas – por exemplo: dor em membros há meses, tosse há semanas, entre outros, com a criança bem, devem ser avaliadas em consultório, numa consulta agendada, em um ambiente mais adequado, para melhor compreensão do caso. Se você procura uma segunda opinião, provavelmente a opinião do médico emergencista não será a melhor.
  8. Dor abdominal. Caso ela esteja acompanhada de vômitos que não cessam, distensão abdominal intensa (barriga estufada), dolorosa e parada da eliminação de flatos e parada de evacuação, essa criança deverá ser avaliada.

“De uma maneira geral, o principal erro que eu vejo na tomada de decisão sobre ir ou não ao pronto-socorro está relacionado com o desespero dos pais. Minha sugestão é que, excluindo os casos gritantes, como o traumatismo craniano que perde a consciência, por exemplo, que a criança seja observada, medicada, que o pediatra da criança seja consultado e que ocorra o surgimento de um quadro clínico mais consistente (não apenas febre isolada) para que a consulta no departamento de emergência seja produtiva e eficaz”, orienta.

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