Em entrevista o ex-prefeito explica sua decisão e critica posicionamentos atuais da sigla partidária

O que representa para você a entrada de uma parte do PSDB para dentro do governo do Orestes?

Representa para mim um retrocesso. O partido caminhou para trás, pois tivemos quatro anos de muito trabalho com inúmeras conquistas, embora vivenciamos o pior momento da história na política nacional, e mesmo assim, conseguimos avançar em vários aspectos no âmbito do município. Essa ida do PSDB para o governo, de maneira prematura, foi para mim um ato de tamanha irresponsabilidade.O PSDB deixou um legado enorme em termos de obras e recursos conquistados junto aos governos estadual e federal, e agora renega seu próprio feito. Deveria ter continuado na sua trajetória de conquistas, se manter dentro de uma oposição responsável. Governo sem oposição é um prejuízo muito grande para a sociedade. É preciso sim cobrar, e o PSDB deveria cumprir seu papel nesse momento. Alguns preferiram se render às ofertas de empregos e cargos ao invés de seguirem a ideia inicial que foi apresentada na última convenção municipal de 2017. O governo tem a caneta na mão e, nessas horas, a gente percebe que é muito fácil ceder às pressões. Se não tiver pulso e não for firme, acabam cedendo às ofertas tentadoras.

Quando houve esse chamado do governo atual para o PSDB, todos os que estavam no PSDB foram comunicados? 

Não! Isso é outro detalhe, não tivemos a oportunidade de debatermos esse tema, fomos convocados às pressas para reunião com a executiva municipal, onde a pauta da reunião foi apresentada sem consentimento prévio. Me lembro bem sobre as inúmeras vezes que tanto eu como outros integrantes do partido havíamos solicitado ao presidente para que convocasse reunião com os membros do diretório, porém sem êxito. Para minha surpresa, a reunião foi substituída por uma lista que correu entre alguns partidários que acredito não chegar a trinta pessoas, para que concordassem com a tal aliança com o governo, com isso receberiam em troca a oportunidade de cargos e empregos para seus indicados. Algumas pessoas, inclusive, pediram desfiliação por não concordarem com essa atitude arbitraria em se aliar ao governo Orestes. A reunião que deliberou a aliança com o atual governo através da executiva municipal foi rápida, pois as cartas já estavam marcadas, embora eu tenha solicitado que o diretório fosse consultado e me foi negado tal pedido, fui voto vencido e a reunião se encerrou. Entendo que essa tomada de decisão deveria ter passado por uma discussão mais ampla envolvendo a militância local.

O diretório de uma maneira geral não foi ouvido, isso foi uma afronta ao próprio partido, porque democraticamente não é assim que se faz. Nós estamos há mais de dois anos sem convocações de reuniões, sem que o partido se reúna e discuta o que nós queremos, o que pensamos para o futuro. Não estava preocupado em manter a minha liderança dentro do PSDB, não é isso, tenho convicção que para um partido crescer ele tem que abrir diálogo, dar oportunidades para que novos personagens surjam dentro do processo político. Não fui cacique do partido, sou e sempre fui muito aberto ao diálogo, e entendo ser necessário que ocorram renovações, mas com maturidade. O PSDB não tem feito sua lição de casa nos últimos dois anos, simplesmente seu destino foi decidido por algumas poucas pessoas.

Eu digo que o PSDB foi comprado, pelo atual governo, sem que a maioria de seus membros pudessem opinar ou dizer que concordavam com isso.

O JTV fez um editorial às vésperas de uma eleição do PSDB.Você está participando desses acordos e de como vai ser essa eleição ou não?

Não, não estou participando de nada. O comando do partido deveria ter se reunido para discutir o que realmente se pretende e mais uma vez isso não aconteceu. Pelo que sei nem os próprios vereadores foram consultados sobre possível chapa a ser apresentada para o próximo biênio. Das outras vezes que houve eleições para novo diretório ou executiva, sempre aconteciam reuniões prévias para que a gente pudesse montar uma chapa e etc.. Pode ser então que venha uma chapa única de interesse pessoal e arbitrário e em função disso não estou também mais disposto a participar, não é meu estilo de trabalho. Para conduzir um partido político você precisa ser democrático, ouvir as pessoas. Não dá para tirar por base uma chapa onde seus membros estão engessados ou comprometidos com interesses pessoais. Não é saudável para o partido.

Então você vai sair do PSDB?

Sim, por essa razão encaminhei minha solicitação de desfiliação partidária do PSDB.

E você já tem algum outro partido?

Ainda não decidi por outra sigla, tivemos na última eleição cerca de 20 partidos que se coligaram a campanha majoritária, portanto, temos convites de vários partidos. Porém é preciso analisar com maior clareza, a legislação eleitoral sofrerá mudanças para as eleições de 2020 e os partidos precisarão se adequar a realidade, além disso não estou sozinho nessa saída do PSDB, vários outros colegas estão se desligando e estaremos conversando para tomarmos essa decisão em conjunto.

Você se sentiu traído com isso? Ou é um termo muito forte?

Sim… É uma traição, não só a mim, más também àqueles que acreditaram na ideologia do PSDB, às raízes do partido. Não tenho dúvidas que trabalhamos muito para chegar a esse ponto de maturidade, a minha candidatura em 2012 só foi possível porque esse foi o método utilizado, (diálogo), e o nosso sonho sempre foi ser livre para tomada de decisões. O partido que não ouve sua base e não dá atenção à população, perde sua referência, perde o sentido da sua existência e se torna apenas uma sigla qualquer, sem expressão.

O PSDB sempre teve bons nomes e o fato de ser aberto e participativo à sociedade, elevou muito seu crescimento. Nós já tivemos oportunidades inúmeras de participar de debates. A Fonte Santa Tereza sempre foi o palco de grandes discussões. O Adriano Geléia que começou esse movimento, foi grande incentivador das acaloradas reuniões, mas que ao final permitia que chegássemos a um consenso. Quando você participa de um debate, tem um diálogo e é voto vencido, tudo bem, faz parte da democracia. Agora, quando você não tem sequer o direito de participar, discutir e colocar diante de todos as suas idéias, aí não vale a pena.

O PSDB deveria lançar novos nomes, como você mesmo afirmou?

Sim, eu entendo que se o PSDB estivesse hoje cumprindo seu papel, cobrando seus vereadores um posicionamento mais firme de questionamentos e de oposição, nós teríamos um cenário bem diferente no contexto da política local.

A Câmara é um fator importante da política municipal, controla a administração pública, deve fiscalizar de fato, ficar em cima da administração, ouvir a voz que vem das ruas. Além do vereador ser um elo importante do município com o poder legislativo estadual e federal.

Eu me lembro quando estive na câmara, durante cinco mandatos, não era preciso estar ligado ao governo ou ser da base do governo para trabalhar pela cidade. Como exemplo, posso citar a vinda do Corpo de Bombeiros, foi uma conquista nossa, daquela época. Eu era vereador de oposição, e o Prefeito era o dr. Vitório Antoniazzi, nós fomos até São Paulo, articulamos com o governo estadual e trouxemos para Valinhos uma unidade do Corpo de Bombeiros, mesmo sendo oposição ao prefeito,  trabalhamos pelo bem da sociedade e não para que possamos receber as palmas do prefeito ou algo em troca.

O prefeito tem a obrigação de trabalhar pela cidade, foi eleito para isso, agora quando você se alia e se curva diante de uma prefeitura, com cargos e um monte de benefícios, você perde a tua força, a força de cobrar, a força de dizer ‘não’, de votar contra quando se faz necessário, de fazer as exigências necessárias em favor do povo.

O PSDB está tendo um prejuízo enorme, por isso eu citei o retrocesso. Os vereadores deveriam ter se manifestado e se colocado em seu devido lugar,serem legisladores de fato, não quero aqui generalizar, mas nessas horas quem tem cargo, quem está dentro de uma proteção, perde sua voz, principalmente quando o chefe do executivo é arbitrário e não aberto ao diálogo. Se o partido tivesse unido, sem dúvida poderia estar cobrando um posicionamento diferente, mas o PSDB se rendeu e com isso alguns outros se renderam também.

Segundo o que ouvimos mais pessoas do PSDB que estavam fora, devem voltar para administração atual. O que acha disso?

Creio que sim, afinal quem vai recusar um bom salário? Pode ser imoral, mas não é ilegal, e assim novos adeptos dessa ideia vão se apresentando. Não é nada oficial, pode ser que o próprio Prefeito  venha para o PSDB, se isso acontecer, significa que esse acordo vem sendo costurado há muito tempo. Ou talvez, seja Fake News, como diziam lá trás quando questionávamos sobre a ida do PSDB ao governo.

O PSDB está se rendendo a pessoas que não tem história no partido, sem que tenham contribuído com uma vírgula se quer. Lideranças, infelizmente tomam decisões equivocadas, sou adepto de uma frase que aprendi com um grande amigo que diz: “fazer o certo da maneira certa, fazer o certo da maneira errada, sempre vai dar errado”.  O Brasil está vivendo uma situação crítica, justamente por razões idênticas, quem é eleito, tem que se reportar ao eleitor.Esse para mim é o fator número um, aquele que foi à urna e entregou o voto de confiança a um candidato deve ser ouvido. Me perguntam constantemente, porque seu partido tomou tal decisão em apoiar o atual governo? Ai tenho que dizer, faltou diálogo, minoria decidiu pela maioria. Ai só me resta pedir desculpas aos cerca de 20 mil eleitores que votaram na chapa do PSDB em 2016, assim como a todos os cidadãos de bem de nossa cidade.

Que Deus nos ilumine em nossas decisões.

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