A música que desafiou épocas: ‘Ouro de Tolo’ de Raul Seixas

Uma análise profunda da canção que questionou a sociedade brasileira nos anos 70 e ainda permanece relevante

Em maio de 1973, o Brasil testemunhou o lançamento de um compacto simples, de número 6069076, pela gravadora Philips, trazendo a assinatura inconfundível de Raul Seixas. O lado A do disco apresentava a icônica canção “Ouro de Tolo”, escrita pelo próprio Raul, enquanto o lado B trazia “A Hora do Trem Passar,” uma colaboração entre Raul e Paulo Coelho. Esta marcante composição, “Ouro de Tolo,” marcou a chegada de Raul Seixas como uma das figuras mais influentes da música brasileira.

O que mais chama a atenção em “Ouro de Tolo” é a contraposição entre a serenidade musical e a contundência das palavras. Embora a melodia seja suave, a letra desafia a mediocridade dos sonhos do cidadão comum brasileiro. Raul Seixas escreveu essa música em 1973, uma época marcada pelo otimismo do Milagre Econômico e a visão de um “Brasil Grande,” onde as pessoas aspiravam a carros e TVs. No entanto, Raul desdenhava desses desejos mundanos, almejando conquistas de maior significado.

A faixa também é notável por seu humor peculiar. Raul ousou incluir referências a macacos, pipoca e tobogã em uma composição que aborda temas sérios. Em um verso memorável, ele até menciona a ida ao zoológico com a família, ironizando a instituição familiar. “Ouro de Tolo” foi concebida em um período de forte repressão durante a ditadura militar no Brasil, tornando surpreendente o fato de que referências a “doutor, padre e policial” tenham passado despercebidas pelos censores. Outro verso impactante destaca as palavras “humano,” “ridículo” e “limitado”.

A cada revisitação da letra de “Ouro de Tolo,” novas nuances e mistérios emergem. A frase “Eu devia estar contente por ter conseguido tudo o que eu quis” intriga, sugerindo que Raul, apesar de ter alcançado seus objetivos, continuava insatisfeito. As alusões autobiográficas a um período difícil no Rio de Janeiro, após sua mudança de Salvador para trabalhar em uma gravadora, acrescentam camadas de significado. Raul se autodenomina um artista de sucesso, apesar de seus discos anteriores não terem vendido bem, uma ironia inteligente.

O clímax da música, com a famosa passagem “Eu é que não me sento no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar,” apresenta uma das passagens mais belas da música brasileira, destacando a futilidade de uma existência desprovida de propósito. A música também toca em temas como vida em outros planetas e a fuga da realidade representada por discos voadores, assuntos que Raul Seixas exploraria posteriormente na faixa “S.O.S.” em 1974.

A frase enigmática “cercas embandeiradas que separam quintais” questiona se as bandeiras representam a posse de riquezas materiais ou ideologias que dividem as pessoas. Uma questão pertinente na década de 1973 que continua relevante na sociedade contemporânea. O segredo da durabilidade de “Ouro de Tolo” reside em sua natureza política desprovida de ideologias, priorizando a liberdade individual e o despertar de consciência em vez de críticas governamentais. Raul Seixas enxergava além de seu tempo, propondo novos caminhos e, por esse motivo, “Ouro de Tolo” permanece atemporal.

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