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Infernos

Dante Alighieri, em “A Divina Comédia”, escrita no início do século XIV, entre 1304 e 1321, descreveu o Inferno, composto por nove círculos concêntricos, dispostos em camadas, que quão mais profundas, mais frias são, constituindo um cone invertido, onde todos os tipos de pecadores sofrem suas danações. Na mais aguda profundeza, morada do próprio Lúcifer, os piores dos piores dos ímpios permanecem enterrados no gelo.

Do mais superficial deles, ao mais profundo dos círculos infernais, não faltam dores e flagelos, sem fim, aos eternos condenados, pois não há volta para eles, que atravessaram o portal, onde uma inscrição avisa: “Deixai toda esperança, vós que entrais!”

O fantasma de Virgílio, poeta de “Eneida”, condenado à escuridão e ao silêncio, no Limbo — o primeiro e o menos penoso dos níveis infernais — foi quem serviu de guia a Dante, o protagonista, após salvá-lo da morte, numa tenebrosa selva, onde se encontrava perseguido por três bestas feras: Uma loba, uma pantera e um leão.

Virgílio o salvou das bestas, a pedido de Beatriz, amada adolesceste de Dante, figura representativa de sua abalada fé.

Não se enganem pelas demais alegorias de Dante, pois a selva se revela como os vícios humanos. A loba é a avareza; a pantera, luxúria e fraude; o leão, soberba e violência. Feras que descrevem a Florença do poeta fiorentino.

Na jornada de Dante, guiado por Virgílio, seu mentor, antecede ao Inferno, um Ante-Inferno — O Vestíbulo do Inferno, onde os acovardados, indecisos na vida, correm em fila, atrás de uma bandeira que nunca alcançam, enquanto são picados por vespas e moscas e têm seus pés e pernas roídos por vermes.

Não há Paraíso ou Inferno, para os que passaram a vida sem se posicionarem diante dela, alerta-nos o poeta.

Na epopeia de Dante, nas descidas dos abismos infernais; nas escaladas pelas montanhas do Purgatório e por fim no esplendor do Paraíso, o protagonista testemunha as consequências que sofrem aqueles que já morreram.

Os círculos infernais, nas profundezas da Terra, abrigam todos aqueles que em vida pecaram e espalharam o mal. Grandes homens e mulheres, lá estão, cada qual com seu sofrimento infinito. Também estão seres mitológicos, deuses e semideuses, a cumprirem seus castigos.

Para Dante, ainda que as portas do Inferno não tivessem chaves, dele os condenados à danação não saiam.

Ah, esperançoso Dante, quem nos dera que estivesse correta sua visão!

Das portas abertas dos círculos infernais, entram e saem em quaisquer tempos e lugares os mais atormentados demônios e condenados.

Dos túneis da Gaza, — infernos rasos — brotam terroristas a matar e sequestrar os que vivem sobre a Terra. Contra eles, seres de almas que também já estão destinadas às profundezas, produzem morticínios de milhares de inocentes, em guerras ímpias.

O Inferno já não tem suas fronteiras definidas, como viu Dante. Está nas trincheiras, nos palácios, nas empresas, nos governos, nas igrejas, nas ruas e sob elas.

Condenados, agora, cavam, perfuram, corroem a Terra, que sucumbe, desmorona, afunda, alaga, inunda, arde, queima…

Afinal, que diferença há entre as centenas de quilômetros de túneis do Hamas, dos que a Braskem e suas similares perfuram e exploram, quando vemos o terror que causam?

O que dizer dos bombardeamentos criminosos de Israel sobre milhões de inocentes, pulverizando suas vidas e cidades, não diferente da violência do acordo abjeto de uma das maiores petroquímicas do mundo, causadora da tragédia que assola vários bairros de Maceió e desaloja seus mais de 60 mil habitantes?

Às terríveis descrições de Dante, ouso acrescentar que em algum lugar do Inferno, haja um deserto de sal, onde alguns condenados passem a eternidade cavando túneis com as próprias mãos, sem qualquer gota d’agua; nem mesmo suas próprias lágrimas, que não acredito possuírem.

De minha parte, aceitarei o Inferno, se me couber a condenação; o Purgatório, se houver alguma chance, ou até o Paraíso, se ocorrer algum engano.

Mas, em nenhuma hipótese, quero ser mandado para o Vestíbulo do Inferno, lugar dos covardes. Assim, escrevo.

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