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O reinado de Natália Francisco Lopes na Festa do Figo edição 2017

Entrevista reveladora com a rainha da 68ª edição da Festa do Figo e 23ª Expogoiaba

Na 68ª edição da Festa do Figo e 23ª Expogoiaba, em 2017, a escolha da rainha trouxe não apenas glamour, mas também desafios e reflexões sobre representatividade. Natália Francisco Lopes, conhecida pelo seu nome social, Solanus Nata, concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal Terceira Visão, compartilhando suas experiências marcantes durante o reinado e a busca por quebrar barreiras na tradição do evento.

O que a inspirou a se candidatar para o cargo de rainha na Festa do Figo em 2017?

Minha inspiração foi poder trazer ainda mais representatividade para a cidade e para minha família. Candidatei-me com a intenção de ser a primeira rainha preta.

Como foi a experiência para você ao se tornar a primeira mulher preta a ocupar o papel de rainha na tradicional Festa do Figo?

Minha expectativa em relação ao cargo de rainha foi completamente equivocada. Depois de vencer, percebi que não se tratava de um privilégio social, como divulgado pela prefeitura, mas sim de um trabalho análogo à escravidão. Não recebi salário para ser exposta em diferentes lugares durante meses, com jornadas exaustivas, e enfrentei ataques racistas que me levaram a querer parar de representar a festa.

Quais foram os momentos mais significativos que você vivenciou durante seu reinado na Festa do Figo?

Entre os momentos mais significativos, destaco algo positivo que foi a homenagem da Associação Cultural Afro-Brasileira de Valinhos, que reforçou o impacto da minha imagem na história da cidade. Também destaco algo negativo, que foi ter enfrentado desafios que prejudicaram minha saúde mental, coisa que precisei cuidar sem apoio da prefeitura, apesar das tentativas da minha família.

Quais desafios você enfrentou durante esse período e como conseguiu superá-los?

Enfrentei desafios relacionados à imagem e desenvoltura, além de questões financeiras. Fui obrigada a me silenciar sobre a opressão que enfrentava. Com dificuldades financeiras, inclusive para comprar um sapato adequado, percebi a necessidade de apoio às pessoas negras na realização de seus objetivos, levando-me a repensar minha carreira, o que me levou a fundar a Rede de Aquilombamento Marrons.

Além de representar a comunidade, de que forma você utilizou sua posição como rainha para promover inclusão e diversidade no contexto do evento?

O que me permitiram fazer não foi suficiente para efetiva representação da comunidade, pois não tive lugar de fala aberto. Até hoje, não tive oportunidade de promover inclusão ou diversidade no evento ou em projetos enviados à prefeitura, mesmo com a mudança de prefeito, que não proporcionou resposta.

“Minha coroa na Festa do Figo não foi apenas brilho, mas também desafios. Ser a primeira rainha preta trouxe reflexões sobre a importância da representatividade real e da inclusão efetiva.”

Como a comunidade reagiu à sua escolha como rainha, e de que maneira isso influenciou a atmosfera da Festa do Figo?

A reação da comunidade foi diversificada, com olhares positivos e negativos. Contudo, minha voz foi silenciada, e minhas crises de pânico não foram abordadas pela organização, o que não influenciou a atmosfera da festa de maneira significativa.

Houve alguma inspiração específica que a motivou a buscar a coroa da Festa do Figo?

Minha própria inspiração me impulsionou a buscar fazer história em nome da minha família e ancestrais. Meu primeiro título foi como Miss Beleza Negra em São João da Boa Vista em 2011, busquei repetir esse feito em Valinhos.

Quais foram os momentos mais marcantes em que você interagiu com outros famosos durante a Festa do Figo?

Não tive interações com pessoas famosas na época, mas uma experiência marcante foi participar da audição do projeto musical do meu irmão, cantando junto com sua banda.

Existe alguma história inspiradora relacionada ao seu reinado que você gostaria de compartilhar e que talvez não seja tão conhecida pelo público em geral?

Sim, a minha história. Entendi o quão difícil e revolucionário foi o que vivi. Em 2023, comecei a desenvolver materiais que contam essas histórias para inspirar outras pessoas que passam por situações semelhantes.

Como sua participação como rainha impactou a tradição da Festa do Figo e contribuiu para maior diversidade e representação na comunidade local?

Acredito que não impactou. Posso afirmar que fui silenciada, não recebi acolhimento e não vi diversidade ou representatividade na festa ou após ela.

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