Você faz falta para quem?

Passei por uma experiência bastante produtiva recentemente, na última semana eu fiquei internado por sete dias. Lá, no leito do hospital, eu podia apenas ficar deitado e só, sem celular nem outras atividades que ocupassem a minha mente, e foi justamente com essa regra que fiz uma espécie de “faxina emocional”, adoraria partilhar com você que me acompanha na leitura desse artigo, pois penso que ela possa ser proveitosa para você também. Vamos a ela?

Bom, há muitos pontos que eu posso vir a abordar aqui, como eu escrevo ao sabor do acaso, e coloco no papel o que me vem à cabeça espontaneamente, vou colocar à mesa a seguinte provocação: a falta que fazemos! Pergunto-lhe: você faz falta? Sabe aquele monte de amigos que você jura ter, aqueles familiares que sempre estão contigo, os “namoradinhos, namoradinhas”, os companheiros de trabalho, pois são justamente eles que, em teoria, deveriam sentir sua ausência, mas no meu caso isso não ocorreu. Estamos em uma era digital onde posso me dar ao luxo de atualizar através de neologismo uma frase consagrada do filósofo francês René Descartes que é: “Penso, logo existo!”. Eu a adaptei para: “Posto, logo existo!”, portanto, em uma geração que respira por wi-fi e está conectada 24 horas por dia, penso que, alguém que lhe quer bem sentiria sua falta se você se ausentasse por um, dois, três, sete dias, já que postar algo é sinônimo de estar vivo, a ausência de postagens é sinônimo de “sumiço, desaparecimento, quiçá a morte”?!

Comigo ocorreu o inverso, pessoas que há doze anos não falavam comigo me enviaram mensagens perguntando aonde eu estava, o que estava acontecendo comigo, sentindo minha falta em postagens, olha a que ponto chegamos?! Essa semana internado eu me utilizei do famoso “ócio criativo”, metodologia criada pelo grande nome da filosofia Sócrates que a defendia por dizer que com ela é possível você “colocar ordem na casa”, é possível você fazer uma “faxina na sua vida afetiva e emocional”. Foi justamente o que fiz! Ao estudar psicanálise, uma das coisas que me chamou a atenção foi a questão do narcisismo (olhar mais para si) e do egocentrismo (que podemos colocar de forma leiga e didática como semelhante ao conceito anterior). Pensei que, no tocante a prática da empatia, ela deve sim existir, mas de forma equilibrada, pois não há como ajudar o próximo se você não esteja inteiro, seguro, confiante, se amando. Eu passei toda minha vida me doando, sem expectativas de retribuição ou reconhecimento, tirando da boca para dar ao próximo (como diria minha saudosa avó dona Angelina), mas percebi nessa semana internado fazendo essa “faxina emocional” que essa minha balança estava desequilibrada, e resolvi reajustá-la. Esse reajuste não é fácil, mas precisa que aja um primeiro passo que é justamente o de se colocar em primeiro lugar! Se priorizar (sem se esquecer da ética)!

Em uma semana internado as pessoas que estavam no meu círculo social mais íntimo sequer notaram minha ausência, e dali é que resolvi amadurecer esse lado afetivo meu para comigo. Pensei em quantas vezes deixei de me expressar por medo de desagradar, pensei em quantas vezes deixei de fazer algo lícito com receio de deixar um clima desconfortável junto a fulano, cicrano, beltrano… Ali, deitado na maca por sete dias percebi que não faço falta alguma, a não ser para pai, mãe e irmão (que já considero um recorde).

A partir do que expus acima, sobre esse fato clínico que vivenciei e minha “faxina emocional”, sugiro que você reflita sobre isso também, dói, não é confortável, mas por isso mesmo que incentivo mais ainda, pois assim você irá sair da sua bolha social da “vida perfeita” que tem, com pessoas lhe abraçando e sorrindo o tempo todo nas fotos e ao seu lado. Para encerrar essa nossa reflexão; acho válido e produtivo trazer à tona a reflexão de um dos grandes nomes da filosofia alemã, Nietzsche que disse certa vez: “- A solidão em nada me assusta. O que me assusta é a aglomeração humana tentando preencher seus corações vazios com falsas companhias e com falsas muletas privando-se do ócio criativo!”. E é justamente o que vemos no cotidiano dessa nossa geração, principalmente agora, nas confraternizações e festas de família e confraternizações de empresas referentes ao final de ano. O que mais irá haver são falsos sorrisos, famílias unidas, funcionários motivados, pessoas embriagadas, gastando o 13º, fugindo da realidade, indo para onde todo mundo vai, fazendo o que todo mundo faz… (se esquecendo da fatura do cartão de crédito que irá chegar em Janeiro).

Portanto, minha querida leitora, meu caro leitor, termino lhe perguntando (e peço que não responda de bate-pronto, mas que você reflita por algum tempo digerindo lentamente): você realmente faz falta? Para quem faz falta de verdade? Um grande abraço.

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