Distópico real

Olá, espantados legentes!

O domingo passado mal havia começado, e eu já sentia que o 4 de outubro seria distópico. Foi mesmo. E não apenas ele, mas o que se seguiu: imagens de destruição, medo e violência transformaram o meu pressentimento em paisagem.

Ainda na parte da manhã, uma imagem de Nossa Senhora foi derrubada por ventos que ultrapassaram os cem quilômetros por hora em Dracena, SP. Até os mais céticos devem ter pensado que aquilo não era um bom sinal, mesmo tendo caído a de Fátima, que passa bem, não a de Conceição Aparecida.

Eu, de sangue latino, pensei na “minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos, minh’alma cativa” e fui depositar numa urna o meu grito, o meu desabafo contra os ventos do norte que não movem moinhos nessa terra das palmeiras.

Mas, como distopia pouca é bobagem, o dia ainda me reservava, num roteiro surreal, outros sinais capazes de transformar o mau presságio em temor.

Um deles eu vi no lugar onde exerci o meu direito-dever de eleitor-cidadão. Ali, numa imensa parede, esplandece um mural cheio de cores e de amor à terra e a tudo aquilo que ela nos dá. Naqueles campos, arco-íris cubistas servem de chão. Casas pintadas de paz, sob tetos vermelhos, parecem iguais. Nelas, um sombreado celeste-terrestre protege do sol as paredes. Em contraste com o mural, já no mundo real, votantes esmaecidos circulavam febris.

Já ao final do dia, novas imagens distópicas e febris invadem meus olhos. Do teto de um carro, uma criança armada dispara seu ódio ao léu; sabe-se lá o que ela tanto mata sem saber. Uma mulher branca, com flores na cabeça e um relho em punho, açoita o chão que pisa. Depois, sua imagem num trono de armas me invade a retina. Um menino a adora; outros também. São muitos, e todos celebram com ódio a própria fúria e a daquela mulher.

E outra mulher surge coberta glórias. E suas falas são contra as suas iguais a quem ela chama de ginofascistas.

Falam de uma nova carta e de um tempo passado, cor de chumbo, que querem de volta, repintado feito novo.

Surge outro dia, e as ruas se vestem de resposta: protestam e pedem cor e amor contra o tempo cinzento que outros querem repintar como novo.

Mas cai uma nova noite e, com ela, queimam-se histórias, ideias, descobertas e futuros melhores ainda possíveis. É um fogo distópico, que não destrói apenas o que fomos, mas também aquilo que ainda poderíamos ser.

Talvez ainda possamos.

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