Terça, 26 Janeiro 2021

110 anos do valinhense João Rubinato, o Adoniran Barbosa

Foto divulgação

"Eu vou pro samba. Não sei que horas vou voltar, deixa a vela acesa e a chave no lugar."

O ano era de 1910. Os primeiros imigrantes italianos haviam chegado 22 anos antes para trabalhar nas lavouras de café, trazidos pelos trens da Cia. Paulista de Estrada de Ferro, que havia inaugurado uma estação na então Vila de Valinhos em 1872.

No ano de 1910, o figo, introduzido nove anos antes pelo imigrante italiano Lino Buzzato, começava a se tornar um produto rentável para os agricultores e a fábrica de sabonetes do também imigrante italiano José Milani, a Gessy, exportava seus produtos para o mundo em função da Guerra Mundial.

Em 1910, Valinhos, elevada a distrito 14 anos antes, ainda era marcado pelas grandes fazendas, como a Dois Córregos, do Brigadeiro Luiz Antonio, tido como o homem mais rico da capitania. Mas o distrito já se desenvolvia rapidamente na esteira da imigração italiana e das mudanças econômicas.

Foi nesse cenário e nesse ano em Valinhos, no dia 6 de agosto, que a família de imigrantes italianos Rubinato celebrou o nascimento de seu filho, a quem batizou de João. Historiadores apontam que João Rubinato nasceu na região sob o Viaduto Laudo Natel, onde passou sua infância.

Alguns anos depois, os Rubinatos se mudaram para Jundiaí e para São Paulo em 1930, onde João personificou aquele que seria um dos ícones da música e arte brasileiras, Adoniran Barbosa, filho ilustre de Valinhos.

Sobre as circunstâncias de seu nascimento e infância, o artista ironizou: "Não nasci, porque pobre não nasce: aparece."

Nesta quinta-feira, 6 de agosto de 2020, Adoniran Barbosa completa 110 anos de nascimento. "Se eu soubesse que ia ser radioator, teleator e artista de cinema, não mudaria meu nome, ficava João Rubinato mesmo. Mas cantar samba com nome italiano não dá!", disse em uma de suas entrevistas.

Multiartista

Adoniran, multiartista e ídolo eterno do samba paulista, foi também um cronista preciso do desenvolvimento de São Paulo, que acompanhou na poesia de suas músicas. Embora tenha incorporado o cotidiano paulistana da época, suas letras permanecem atemporais.

O trabalho do artista é marcado pelo humor, pela ironia e pela tristeza. Ele mesmo se definia como um palhaço triste. "Eu sou um cara triste, sabe, eu faço piada, mas é tudo por fora", chegou a declarar anos antes de morrer.

O multiartista começou a carreira como cantor, compositor e apresentador de rádio, fez fama como radioator cômico e chegou a atuar no cinema e na TV. Morreu em novembro de 1982, deixando uma única herdeira, a filha Maria Helena Rubinato.

Antes de se iniciar nas artes, exerceu várias profissões. Foi tecelão, entregador de marmita, varredor de fábrica, pintor, balconista e garçom. As dificuldades financeiras marcaram sua história e seu trabalho. "Chega de homenagens. Eu quero o dinheiro", afirmou.

Carreira

No começo da década de 30, participou de programas de calouros da rádio Cruzeiro do Sul de São Paulo. Em 1935, compôs, em parceria com o maestro e compositor J. Aimberê, sua primeira música "Dona Boa", eleita a melhor marcha do Carnaval de São Paulo naquele ano.

Trabalhou na rádio Cruzeiro do Sul até 1940, transferindo-se em 1941 para a rádio Record, onde começou sua carreira de ator de radioteatro. O nome artístico veio em 1935, quando João Rubinato adotou Adoniran de um amigo que trabalhava nos Correios e Barbosa do sambista Luiz Barbosa.

Recebeu muitas críticas pelo português errado, mas defendia que cantava como o povo e que era preciso conhecer bem o português para compor como compunha. "Não é fácil escrever errado como eu escrevo, pois tem que parecer bem real. Se não souber dizer as coisas, não diz nada", dizia.

Com Osvaldo Moles, parceria de 26 anos, criou clássicos como "Tiro ao Álvaro" e "Pafúncia". Em 1945, Adoniran estreou no cinema em "Pif-Paf", seguido de "Caídos do Céu", em 1946, ambos dirigidos por Ademar Gonzaga. Em 1953, atuou em "O Cangaceiro", de Lima Barreto.

Sucesso

O impulso na carreira de compositor veio em 1951, quando o conjunto Demônios da Garoa saiu premiado do Carnaval paulista com o samba "Malvina", de sua autoria. No ano seguinte, eles repetiram o feito com "Joga a Chave". Começava aí mais uma parceria de anos na vida do compositor.

"Saudosa Maloca", que o próprio autor havia gravado em 1951, fez sucesso com os Demônios da Garoa em gravação de 1955 e ganhou a voz de Elis Regina nos anos 1970. Do mesmo ano é a gravação de "O Samba do Arnesto".

Mas foi "Trem das Onze", de 1964, seu maior sucesso. Em 1965 a composição foi premiada no Carnaval do Rio de Janeiro. Além dos Demônios da Garoa, o samba recebeu uma versão da cantora baiana Gal Costa.

Boêmio, com direito a mesa cativa no salão principal do Bar Brahma, um dos mais tradicionais de São Paulo, Adoniran passou os últimos anos de sua vida triste, sem entender o que tinha acontecido à sua cidade.

"Até a década de 60, São Paulo ainda existia, depois procurei mas não achei São Paulo. O Brás, cadê o Brás? E o Bexiga, cadê? Mandaram-me procurar a Sé. Não achei. Só vejo carros e cimento armado."

Adoniran Barbosa por João Rubinato:

"Não nasci, porque pobre não nasci: aparece"

"Tá certo, seu Paulo, o senhor continue estudando, tá, e quando chegar o dia da sua formatura, me avise!" (Sobre a resposta de Paulo Machado de Carvalho, seu chefe na Rádio Record, que disse que estava "estudando o caso" quando Adoniran lhe pediu aumento de salário

"Mulher é uma mistura completa de vitaminas e sais minerais. Fortalece o homem, faz bem para a saúde."

"Nóis viemos aqui pra beber ou pra conversar?" (Bordão do comercial da cerveja Antarctica, nos anos 1970)

"Não é fácil escrever errado como eu escrevo, pois tem que parecer bem real. Se não souber dizer as coisas, não diz nada"

"Eu sou um cara triste, sabe, eu faço piada, mas é tudo por fora"

"Chega de homenagens. Eu quero o dinheiro."

"Bom de briga é aquele que cai fora."

"É melhor viver um dia de cada vez, do que sonhar com um futuro que talvez possa não acontecer."

"Eu vou pro samba. Não sei que horas eu vou voltar."

"Quanto a você, da aristocracia, que tem dinheiro, mas não compra alegria, há de viver eternamente, sendo escrava desta gente, que cultiva hipocrisia."

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Comentários: 2

Fausto José de Macedo em Sábado, 12 Dezembro 2020 14:30

Mas, desculpe ou ignorância ousadia os últimos versos não são de Noel?
Fauzé Macedo

Mas, desculpe ou ignorância ousadia os últimos versos não são de Noel? Fauzé Macedo
Fausto José de Macedo em Sábado, 12 Dezembro 2020 14:32

Visitante
Fausto José de Macedo em Sábado, 12 Dezembro 2020 14:30

Mas, desculpe ou ignorância ousadia os últimos versos não são de Noel?
Fauzé Macedo

Visitante Fausto José de Macedo em Sábado, 12 Dezembro 2020 14:30 Mas, desculpe ou ignorância ousadia os últimos versos não são de Noel? Fauzé Macedo
Visitante
Terça, 26 Janeiro 2021

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