Entre promessas e desencantos, a voz silenciosa de um povo cansado de esperar.
Há dias em que o silêncio de um povo diz mais do que todos os discursos reunidos. E há domingos em que esse silêncio ganha voz, atravessa as portas das escolas, entra nas cabines eleitorais e se transforma em voto.
Penso nisso enquanto tomo meu café e observo a vida acontecendo lá fora. O padeiro já abriu as portas. O trabalhador espera o ônibus. Uma senhora, diante da banca de verduras, escolhe cuidadosamente o que pode levar. Não o que gostaria, mas o que seu dinheiro permite.
É nesse Brasil, tão distante dos palanques, que a política deveria começar.
As eleições sempre me provocam uma reflexão. Não tanto pelos vencedores ou vencidos, mas pelo que existe por trás de cada voto. Porque ninguém entra numa cabine eleitoral deixando do lado de fora suas preocupações, suas esperanças ou seus desencantos.
Ali também entram o aluguel atrasado, o preço dos alimentos, a consulta médica que não chega, o filho procurando emprego e o aposentado fazendo contas para descobrir se o dinheiro alcançará o fim do mês.
E pensar que, durante as campanhas, tudo parece tão simples!
Prometem-se soluções grandiosas, prosperidade ao alcance das mãos e um futuro que, curiosamente, está sempre prestes a chegar. Passam os anos, mudam os governantes, renovam-se os discursos, mas muitas dificuldades continuam sentadas à mesa das famílias brasileiras.
Não surpreende que tanta gente esteja cansada.
Cansada de promessas que envelhecem antes de serem cumpridas. De discursos que dividem quando deveriam aproximar. De políticos que falam em nome do povo, mas parecem desconhecer o preço de um litro de leite.
Não acredito, entretanto, que todo voto de protesto represente adesão apaixonada a determinada ideologia. Às vezes, votar contra é apenas a maneira encontrada por alguém para dizer que não aguenta mais.
E há uma diferença enorme entre escolher por convicção e escolher por desencanto.
A política, infelizmente, parece ter esquecido uma verdade elementar: antes de ser eleitor, contribuinte ou número numa pesquisa, cada brasileiro é uma pessoa. Alguém que trabalha, ama, sofre, cria filhos, envelhece e deseja viver com dignidade.
Não é pedir demais.
O cidadão não espera milagres. Quer apenas que seu esforço produza resultados, que seus direitos sejam respeitados e que o Estado, em vez de lhe complicar a existência, contribua para torná-la menos difícil.
Talvez por isso as urnas tantas vezes contrariem expectativas. Pesquisas procuram medir intenções, mas nem sempre conseguem traduzir sentimentos. E sentimentos, quando acumulados durante muito tempo, podem surpreender até os observadores mais atentos.
Não se trata de direita ou esquerda, embora as diferenças existam e sejam legítimas. Trata-se de algo anterior às ideologias: a necessidade humana de ser ouvido, respeitado e reconhecido.
Democracia não é apenas contar votos. É compreender as pessoas que os depositaram.
Termino meu café. Lá fora, a senhora da banca finalmente escolheu suas verduras. Guarda o troco, ajeita a sacola e segue seu caminho.
Não sei em quem votou. Tampouco preciso saber.
Sei apenas que, independentemente do resultado das eleições, amanhã ela estará novamente fazendo contas.
E talvez seja justamente aí que os governantes devessem começar a ouvir a verdadeira voz das urnas.
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