
Um crime brutal ocorrido na região da Calábria, no sul da Itália, chocou o país e reacendeu o debate sobre a exploração de trabalhadores imigrantes. Quatro trabalhadores agrícolas — três afegãos e um paquistanês — foram queimados vivos dentro de um veículo na cidade de Corigliano-Rossano, na segunda-feira (1º), em um caso que as autoridades relacionam ao sistema conhecido como “caporalato”, considerado uma forma de escravidão moderna.
A polícia italiana prendeu dois suspeitos paquistaneses apontados como “caporali”, nome dado aos intermediários que recrutam e controlam mão de obra precária para o trabalho agrícola. Segundo as investigações, os homens teriam cometido o ataque após uma disputa envolvendo cobranças feitas aos trabalhadores.
De acordo com as autoridades, os criminosos bloquearam as portas do veículo, despejaram gasolina no interior e atearam fogo utilizando um isqueiro. As vítimas ficaram presas dentro do automóvel e morreram carbonizadas.
A identificação dos suspeitos foi possível graças às imagens registradas por câmeras de segurança de um posto de combustíveis e ao depoimento de um sobrevivente afegão. O jovem conseguiu escapar das chamas ao saltar por uma das janelas do carro e forneceu detalhes fundamentais para a investigação.
Segundo o relato, a motivação do crime estaria ligada à cobrança de valores exigidos pelos intermediários para custear o transporte dos trabalhadores até as propriedades rurais onde atuavam. As vítimas, porém, não conseguiam quitar a dívida devido aos salários baixos e aos pagamentos irregulares que recebiam.
O caso trouxe novamente à tona o problema do caporalato, sistema ilegal amplamente denunciado por entidades de direitos humanos e sindicatos. Nesse modelo, intermediários recrutam imigrantes e trabalhadores vulneráveis para atuar em lavouras e outras atividades, frequentemente em condições degradantes, com jornadas exaustivas e remuneração muito abaixo do previsto pela legislação.
Relatórios do sindicato italiano CGIL indicam que cerca de 70% dos trabalhadores agrícolas submetidos a esse sistema atuam sem contrato formal de trabalho, ficando expostos a abusos, ameaças e exploração econômica.
Apesar de a Itália ter aprovado em 2025 uma legislação mais rigorosa para combater a prática, prevendo penas de até seis anos de prisão e o confisco de bens dos exploradores, a fiscalização ainda enfrenta dificuldades.
Autoridades apontam que o país necessita de pelo menos 6 mil novos inspetores do trabalho para ampliar as ações de controle e garantir o cumprimento das normas trabalhistas em áreas rurais e industriais.
A exploração de mão de obra, no entanto, não está restrita ao setor agrícola. Casos semelhantes têm sido registrados em segmentos como logística, construção civil e indústria têxtil, inclusive em regiões mais desenvolvidas do norte e centro da Itália.
Recentemente, em Milão, um executivo do setor da construção foi preso sob acusação de empregar clandestinamente centenas de trabalhadores indianos nas obras do novo consulado dos Estados Unidos. Segundo o Ministério Público italiano, os operários enfrentavam jornadas de até 12 horas diárias, mesmo quando estavam doentes, recebendo cerca de dois euros por hora trabalhada.
O assassinato dos quatro imigrantes reforça as preocupações das autoridades e de organizações de direitos humanos sobre a permanência de redes de exploração que continuam operando no país, muitas vezes ligadas a organizações criminosas e alimentadas pela vulnerabilidade de trabalhadores estrangeiros em busca de oportunidades na Europa.
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