Domingo, 25 Julho 2021

Conheça a importância e os obstáculos da pedagogia social com Renata dos Santos Damas

Ser pedagoga de um serviço de alta complexidade é gratificante, recebemos crianças e adolescentes que por muitas vezes o seu processo de acolhimento perpassa pela escola, muitos foram dentro da instituição escolar, então temos a missão de ressignificar este espaço que também é de cuidado.

Precisamos ressignificar também os preconceitos existentes neste espaço, seja da comunidade escolar para com a criança e o adolescente de acolhimento e dele para a comunidade escolar.

A nossa presença neste contexto vem em forma de estímulo para que se reconheça na busca da autoestima, e do resgate de sua identidade, reconhecimento enquanto sujeito de direito. É importante desenvolver nos indivíduos um pensamento mais crítico, levando em consideração suas experiências e valorizando suas especificidades. Além de termos consciência de nosso papel de educador, enquanto agente de mudança, é fundamental apresentar caminhos, condições, ambientes de aprimoramento e formação educativa na sociedade.

Em nosso trabalho entendemos que as necessidades pedagógicas vão além da escolarização ou reforço escolar, nosso trabalho é proporcionar um ambiente saudável e significativo. Precisamos também traçar estratégias e intervenção na tentativa de amenizar os conflitos vivenciados por nossas crianças e adolescentes.

É preciso sensibilidade, um olhar atento, amoroso, respeitoso e individual para ouvir e perceber suas necessidades, medos, muitas vezes dar nomes a estes medos, desejos, desmistificar lugares e pessoas. Trabalhamos de forma interdisciplinar com assistentes sociais e psicólogos, com toda a rede e ferramentas públicas, com a atuação de outros profissionais do espaço. Entrevistamos a pedagoga social, Renata dos Santos Damas da Casa da Criança de Valinhos para celebrar esta profissão.

Como e quando começou sua carreira como pedagoga?

O que me trouxe até a Pedagogia foi à cultura popular, onde muito se aprende e ensina através da oralidade, do fazer, do ser e onde se entende que todos somos educadores, todos somos condutores e responsáveis pelos mais novos. Com 18 anos, fui estudar dança em Salvador, ao retornar senti a necessidade de ensinar tudo o que vivi e aprendi, a riqueza de nossa cultura popular. Fui trabalhar como arte-educadora em uma instituição de proteção básica, neste período percebi que por meio da Dança é possível ensinar outras disciplinas, como a Matemática, com a contagem dos passos e tempo da música, a Geografia através da regionalidade de cada ritmo brasileiro, História e Português. Com o tempo fui sentindo necessidade de aprender mais e me especializar para ter base teórica e assim poder ter voz ativa. Como jovem atriz, estudante da cultura popular brasileira, com ênfase na dança, como ferramenta pedagógica, senti a necessidade da importante complementação com a formação acadêmica. O esforço para ser ouvida era muito grande, a universidade me auxiliou a ampliar meus horizontes. Em 2016, me formei e desde então atuo como pedagoga Social, uma área apaixonante, extremamente gratificante, onde é possível abordar as diversas formas de educar e aprender, muito além da sala de aula.

Como está sendo trabalhar como pedagoga durante a pandemia?

É um desafio diário, afinal todos nós estamos aprendendo e nos adaptando a este formato de cuidados que se estende há mais de um ano. Antes da pandemia a rotina de atividades escolares em casa, com as crianças era convencional. Anterior à necessidade do distanciamento social, os lares eram locais mais voltados ao descanso, estudo de rotina, hábitos voltados à organização e ao descanso. Com esta nova realidade tivemos que aprender a estar muito mais tempo dentro dos nossos lares, aqui no caso, dentro da instituição e fazer mais coisas remotamente.

Aprendemos a olhar nos olhos, a estar mais tempo ao lado das pessoas que moram no mesmo lar, a perceber na sutileza de gestos e olhares das crianças e dos adolescentes. Buscamos mapear com eles as situações e as emoções. E hoje, com o ensino a distância, é imperioso buscar a aproximação, isso quando o aluno consegue acesso à internet, pois sabemos que há uma enorme exclusão digital em nosso País. É mesmo desafiador manter os vínculos dos alunos, com os professores, educadores e ainda fomentar o foco no interesse do conteúdo apresentado. Trabalhamos de forma intensificada para equacionar as questões destes novos tempos.

Na sua visão, qual a importância do pedagogo para a sociedade brasileira?

Em nossa sociedade o pedagogo é uma ferramenta que apesar de desvalorizada ela promove, provoca e estimula o crescimento. O pedagogo busca abrir um leque de possibilidades que proporciona a formação de identidade, visão política, social, provocando uma análise crítica de situações cotidianas. O pedagogo é agente formador, afinal para todas as profissões é preciso passar por um pedagogo, professor, educador. Desta forma, somos condutores de caminhos.

Quais as dificuldades que um pedagogo enfrenta ao escolher a carreira no Brasil?

A falta de consciência da importância dos professores, a desvalorização da classe na educação formal agrava a situação da educação no País. O sucateamento das unidades escolares, a ausência de materiais, a falta de autonomia (muitas vezes há a restrição da liberdade para o educador ministrar o conteúdo programático das aulas) e as condições de trabalho desfavoráveis também são pontos a receberem atenção da sociedade.

E quais os pontos positivos de trabalhar com as crianças e essa profissão?

Acompanhar o desenvolvimento, saber que contribuímos com a formação integral de cada criança e adolescente e ver os olhos brilhando em cada conquista adquirida, para mim isso é altamente gratificante. Aprendo muito em todo esse processo também. É comum os professores verem a trajetória da educação como uma linha do tempo, assim identificando tendência da evolução individual e coletiva dos envolvidos.

Você teria dicas de como os pais devem lidar com as crianças agora na volta às aulas presencial?

Neste cenário atual, eu, particularmente como mãe e como professora, não entendo como podemos oferecer um retorno presencial seguro a todos os envolvidos, alunos, professores, colaboradores em geral da escola e toda a comunidade. Penso que o Brasil ainda não tem preparo e condições exigidas como referenciado pela Organização Mundial de Saúde - OMS.

E em sua opinião o que as escolas podem fazer para acolher essas crianças em um momento tão delicado?

Penso que é preciso, em primeiro lugar, ter segurança, se não for seguro não poderá ser acolhedor. É preciso respeito, cuidado e proteção integral a todos, isso é primordial neste momento. Respeito, porque muitas vezes a escola é um dos poucos espaços que podem realmente se socializar, ter contato, conversar, brincar, receber e dar carinho e afeto. Estas crianças estão a mais de um ano em casa, com muita energia e ao entrar na escola penso que será uma explosão de sentimentos. A vontade de extravasar não pode ser contida por educadores, que estão a mais de um ano se reinventando, apreensivos, exaustos e com o medo real. Eu mesma me pergunto: como ser acolhedor neste momento?

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Comentários: 1

Edson Sena em Quarta, 26 Mai 2021 06:37

Uau, que entrevista rica e lúcida! Pontos contundentes e argumentos consistentes; gostei muito! Parabéns!

Uau, que entrevista rica e lúcida! Pontos contundentes e argumentos consistentes; gostei muito! Parabéns!
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