A epilepsia é uma doença crônica grave do cérebro com diversas causas, caracterizada na maioria das vezes por crises recorrentes e convulsões. A doença já foi marginalizada até um passado recente, muitas vezes encarada como distúrbios espirituais e possessões demoníacas.
Para esclarecer os nossos leitores o Jornal Terceira Visão entrevistou o Dr. Li Li Min, médico neurologista e professor da Unicamp, especializado nesta área da saúde. Além de várias especializações internacionais, ele é o Embaixador da Epilepsia, indicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e fundador da ONG Assistência à Saúde de Pacientes com Epilepsia.
Autor de vários livros e artigos sobre o tema Epilepsia, Doutor Li é ainda líder do Movimento Roxo, que tem por objetivo esclarecer e ajudar no tratamento e prevenção da doença.
– Jornal Terceira Visão: O que é e quais as causas da epilepsia?
A epilepsia é uma doença crônica grave do cérebro e tem diversas causas. Causas essas que podem ser de fundo genético ou hereditário, em um percentual pequeno, e a maioria das vezes acontece por causas adquiridas em um momento da vida do indivíduo em que leva à uma lesão cerebral. E essa lesão possa então, no caso, fazer com que o cérebro desencadeie crises epiléticas recorrentes. Por exemplo: a pessoa na melhor idade, que teve um acidente vascular cerebral (AVC), estima-se que de 7 a 10% dessas pessoas poderão desenvolver a epilepsia posteriormente. Uma situação de infecção cerebral pode também chegar a ponto de lesar o cérebro, causando uma cicatriz e assim levar à crises recorrentes. Também pode ocorrer com a criança durante o parto, ela pode um quadro de baixa quantidade de oxigênio, com ter uma lesão no cérebro e levar ao quadro de epilepsia.
– JTV: Qualquer pessoa pode ter epilepsia?
Sim, qualquer pessoa pode vir a ter epilepsia. Mas porque algumas pessoas têm a doença e outras não? É uma conjunção de fatores, tem a questão genética da pessoa, a própria formação do cérebro de cada indivíduo, em conjunto com questões ambientais, com eu já falei, pode acontecer em razão de alguma coisa que possa ter acontecido em sua vida.
– JTV: Quais os tratamentos existentes?
Existem inúmeros medicamentos indicados para o tratamento da epilepsia disponíveis no mercado. Temos quatro deles ditos “clássicos”, mais tradicionais, que estão disponíveis, de forma gratuita, no Sistema Único de Saúde (SUS). Existem ainda alguns medicamentos conhecidos como de “alto custo”, também disponíveis na rede pública de saúde, e, na maioria dos casos, estes medicamentos ajudam a controlar as crises em uma proporção de 70% das pessoas com epilepsia. Para os casos onde a medicação não funciona, há a possibilidade de tratamento cirúrgico, em alguns casos, feitos em centros especializados e credenciados pelo SUS e também de forma gratuita. É importante salientar que, em alguns casos de crianças que não respondem à medicação e que não são candidatas ao tratamento cirúrgico, de fazer o tratamento com dieta cetogênica. E por fim ainda há a possibilidade do uso de estimuladores elétricos, que ajudam reduzir a frequência de crises. E outros casos excepcionais há ainda a possibilidade do uso do canabidiol como opção terapêutica.
– JTV: Qual é o número de pessoas com o problema em São Paulo e no Brasil?
O número de pessoas com epilepsia nós costumamos avaliar em cerca de 1 a 2% da população. É uma estimativa, que pode ter variações importantes de lugar para lugar. Depende muito da situação de saúde das pessoas, que pode variar bastante conforme a localidade. A maior parte dos casos são de causa adquirida. Se não tiver, por exemplo, um sistema de saúde que vise o pré-natal, certamente teremos um número maior de pessoas com a doença na infância, decorrente de problemas no trabalho de parto. No Estado de São Paulo temos um número de 460 mil a 920 mil pessoas com epilepsia.
– JTV: O que é e qual o propósito do Movimento Roxo?
O propósito do Movimento Roxo é levar informações sobre a epilepsia. Infelizmente a sociedade ainda não entende o que é a epilepsia. E esta falta de compreensão sobre esta doença neurológica, muitas vezes acaba fazendo com que a pessoa tenha muito medo. E este medo gera preconceito contra as pessoas com epilepsia. O Movimento Roxo visa desmistificar a doença para que as pessoas realmente enxerguem as pessoas com epilepsia não mais como um “bicho de sete cabeças”, mas como um ser humano, que tem uma doença que é tratável, fazendo com que a vida dessas pessoas seja mais fácil. Muitas vezes as barreiras atitudinais fazem da vida da pessoa com epilepsia seja muito difícil, com baixa qualidade. Daí a importância de estarmos levando essas informações para a nossa sociedade, para que ela possa estar melhor preparada para lidar com essas diferenças, mais fraterna e mais inclusiva em todos os aspectos.