Amigos Raros, Conhecidos aos Montes

Do café tagarela ao fone de ouvido — um convite para tirar a amizade do modo soneca

                Sentei no café e percebi: eu não estava cercado de amigos, e sim de conhecidos. O garçom sabe meu nome do app, a moça da mesa ao lado vive na minha timeline, o rapaz do balcão já curtiu três fotos do meu gato. Conheço todo mundo — e, ao mesmo tempo, quase ninguém.

                Antes, bastava um copo na mão e outro à frente para a conversa acender. Estranhos viravam companhia em cinco minutos e amigos em cinco encontros. Guardanapos guardavam números, e um “senta aqui” resolvia o resto. Hoje, mesas cheias de gente sozinha: cada qual no próprio fone, ilhado em multidão. O bar continua bar; nós é que ficamos silenciosos.

                Entre um gole e outro, caiu a ficha: nossa lista de contatos cresce como supermercado, mas o estoque de amizades profundas está em falta. A prateleira do “oi sumido” lotada; a do “tô aqui pra você” quase vazia. Não é drama individual — é um modo de vida que se instalou sem pedir licença. A solidão deixou de ser escolha e ameaça virar hábito.

                Amizade dá trabalho, mas trabalho bom. “Aprender a ser amigo” parece exagero, mas vivemos de manuais para tudo: dieta, produtividade, meditação — por que não amizade? O currículo é breve: olhar nos olhos, responder sem pressa, aparecer mesmo quando nada acontece. Pré-requisito: reservar buracos de tempo onde caibam risos e silêncios.

                Não é apenas um problema social; é crise cultural. Quando a vida cabe numa tela, confundimos presença com notificação. Curtidas são pão-de-queijo de plástico: ocupam, enganam, não alimentam. Amizade funda exige deslocamento, disponibilidade e entrega sem filtros — a coragem de ser imperfeito diante de alguém e continuar querido por isso.

                No café, procuro vaga no estacionamento afetivo e encontro saídas discretas. O senhor que divide a mesa por falta de lugar e, em dois comentários sobre o clima, revela que planta manjericão. A moça que, ao ouvir “posso puxar a cadeira?”, responde “puxe a conversa também”. A amizade renasce assim: em gestos curtos, repetidos até criar raiz.

                “Mas o tempo, cadê?” — pergunta nossa parte acelerada. Reservar tempo para amizade não é luxo; é manutenção. Um café sem roteiro, uma caminhada sem meta, uma ligação que começa com “liguei só pra ouvir sua voz”. Se não fazemos isso de propósito, a rotina faz o contrário: engole encontros, congela lembranças, avaria pontes. As conexões antigas somem de mansinho; viram bairros por onde não passamos mais.

                Não precisa grande evento; funciona o pequeno e contínuo. Três movimentos bastam: abrir portas com perguntas de verdade; doar tempo imperfeito — meia hora hoje vale mais que o dia perfeito que nunca chega; e fazer convites com data e lugar — “quinta, 18h, pastel na esquina?” vence o eterno “vamos marcar”. Se for preciso, leve o cachorro junto. Ele late, a gente conversa, e todo mundo volta melhor.

                Antes de ir, envio duas mensagens: para o amigo que virou conhecido — “Café esta semana? Eu busco.” — e para o conhecido que quer virar amigo — “Li seu texto. Posso te ouvir mais?”. Não são gestos grandiosos, e sim desvios de rota que tiram a amizade do modo soneca e a devolvem ao cotidiano.

                Saio do café mais leve. Não porque o mundo mudou, mas porque eu mudei meio centímetro de atitude. Às vezes é só isso que uma amizade precisa: um passo adiante, uma cadeira puxada, um espaço na agenda que não dependa do acaso.

                Conhecidos, teremos aos montes. Amigos, se cuidarmos, teremos poucos, mas os que bastam — e é isso que faz a vida ter sentido.

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