Pensando bem

— Salve, Alencar! Que bom revê-lo, meu amigo!

— Grande, Nestor! Já não é sem tempo, nosso encontro! Se não me falha a memória, o último foi antes da pandemia…

— Setembro de 2019. Lembro-me bem, Alencar! Precisei carregá-lo até o taxi. — gargalhadas.

— Nem me lembre! Mas falando nisso, eu vou pedir aquela de Salinas para limpar a goela. Garçom!

— Nem pensar, Alencar! Ouvi dizer que botaram metanol em tudo que é destilado por aí. Traga uma gelada, garçom! Só não pode ser aquela de Belo Horizonte, hein?!

— Tem razão, amigo Nestor! Melhor prevenir, do que remediar! A gente não pode confiar em mais nada neste mundo. Nem numa simples cachaça!

— Por falar em confiar, como estão as coisas lá no escritório?

— Nem te conto… Depois que a Polícia Federal passou por lá, a coisa desandou geral. Mudei até o meu dress code, por medo de ser atacado na Faria Lima. Não uso mais meu tênis On Running, pendurei no cabide o meu colete Aconcágua The North Face, meu suéter cinza; parei de usar patinetes e até cancelei as minhas aulas de beach tennis. Eu ainda estou lá, mas quando me perguntam eu digo que estou em transição. Sem falar na grana que eu perdi no mercado de opções em cripto. Coisa segura.

— Melhor é mudar de assunto, meu amigo. E aquele relacionamento?

— Durou um tempo, na pandemia, mas com a coisa de morarmos juntos para amenizar o isolamento, acabou a magia: fomos cada um para um lado. Então entrei no Tinder e fui me aventurando, me aventurando e fui roubado. Demorei oito meses para sair do vermelho no banco. Então comprei um pet: um pug — Adamastor —, parece que ele é confiável. A gente sai todas as tardes para dar uma volta, ver o pôr-do-sol e conversar. E você? E a Janete?

Janet — é como ela prefere agora —. Terminamos há poucos dias. Aliás, só por isso é que eu pude vir aqui. A gente estava bem, mas ela começou a participar de um grupo no Whatsapp e a coisa desandou. No início eu não dei muita atenção, achei que era mais um daqueles grupos para falar de trabalho depois do trabalho. Mas eu deveria ter desconfiado quando ela comprou uma camisa da CBF — falsa, diga-se de passagem —. Só falava do Trump e de morar na Flórida. Daí, na semana passada, eu cheguei em casa explodindo de dor de cabeça e fui pegar um paracetamol no banheiro. Nenhum: zero. Janete havia jogado tudo no lixo. E você sabe que eu fiz vasectomia em 2015.

— Garçom! Pode, sim, trazer aquela de Salinas.

— Pensando bem…

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