

Há quem diga que a vida é feita de verdade. Discordo com entusiasmo. Vida boa mesmo se faz é com uma boa dose de falsidade — daquela inofensiva, a que engana só nossa própria cabeça e, vez ou outra, o mau humor que insiste em acordar antes da gente.
A história é antiga, mas sempre atual: um sujeito instalou na sala de trabalho uma daquelas fontes de água que fazem um barulhinho delicioso, tipo cachoeira zen. Ele adorou… até descobrir que o som da água escorrendo tinha um efeito colateral: aumentava substancialmente seu número de viagens ao banheiro. A fonte virou academia de caminhada involuntária. Mas o ponto é outro — a fonte criou um clima, um estado de espírito. Uma falsidade útil, digamos assim.
Somos máquinas de sensação, afinal. Temos sensores por todo lado, igual aos aviões — e, como eles, também nos confundimos. Aliás, até piloto automático já se perdeu por causa disso; imagine nós, pobres mortais. Por isso recorremos a espantalhos, músicas, plantas e velas aromáticas. Cada um inventa sua forma de enganar o cérebro para sobreviver ao expediente.
Mas existe uma falsidade ainda mais poderosa: o riso. Não aquele que nasce naturalmente ao ver um tropeço elegante de um amigo (esses são os melhores), mas o riso fabricado mesmo. A ciência garante: funciona. O exercício é simples e ridículo o suficiente para dar certo. Você puxa os cantos da boca, força um sorriso meio travado — desses que serviria para foto de documento — e segura uns segundos. Pode até dar uma exagerada e virar um “sorriso japonês”, fechando um pouco os olhos. Repita umas dez vezes.
Pronto. O cérebro cai direitinho no truque. Em poucos instantes, a máquina começa a liberar o combo químico da felicidade, expulsando o mau humor como se dissesse: “Sai, que agora vou rir de verdade”.
É tudo questão de ângulo e comparação. Se você vive em um lugar quente, abra o navegador e pesquise as temperaturas do Alasca no inverno. Em trinta segundos, você se pega agradecendo pelo sol que sempre reclamou. A mente é assim: uma criança impressionável que acredita no que mostramos a ela.
E, convenhamos, é justamente isso que mantém nosso dia respirável. Treinar a mente deveria ser hábito diário — igual escovar os dentes, mas sem precisar olhar no espelho. Ensinar nossos sentidos a encontrar alegria nas pequenas coisas: abrir os olhos, sentir o cheiro do café, ouvir o latido do cachorro do vizinho (de preferência não às seis da manhã). Coisas simples, porém suficientes para lembrar que estamos vivos, inteiros e aptos a inventar felicidade onde ela teima em não aparecer.
No fim das contas, o conselho é só um: não permita que nada nem ninguém roube o seu prazer de viver — nem sequer você mesmo, quando acorda azedo.
Se a verdade estiver difícil, use uma boa falsidade. Às vezes é justamente ela que salva o dia.
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