No Brasil, o título de “doutor” não se conquista — acontece.


A pessoa sai de casa com o CPF, volta com o RG, estaciona o carro e retorna como doutor. Basta um diploma, um paletó ou, em casos mais simples, um crachá preso no pescoço. Em situações especiais, o título vem junto com o ar-condicionado do escritório.
Outro dia liguei para uma empresa qualquer. Atendeu a secretária:
— “O doutor está em reunião.”
Perguntei:
— “Ele é médico?”
Houve um silêncio respeitoso, quase litúrgico.
— “Não… mas é o chefe.”
Pronto. Eis a nova epistemologia brasileira: o doutor não é quem estudou, é quem manda.
Talvez por isso sejamos a única nação do planeta onde o título mais distribuído é justamente o mais vazio. Temos doutores sem doutorado, sábios sem leitura, gênios sem argumento e especialistas em absolutamente nada.
Mas seguimos, civilizados, mantendo a farsa.
Na sala VIP do aeroporto, os doutores multiplicam-se. No condomínio, então, é uma epidemia. A síndica é doutora, o porteiro trata todo mundo de doutor e o cachorro da cobertura deve ser doutor honorário.
O curioso é que, no meio desse carnaval de títulos, os poucos que realmente fizeram doutorado — com tese, banca, orientador e noites mal dormidas — costumam ser os mais discretos. Apresentam-se apenas como “João”, “Maria”, “Paulo”. Já o recém-formado em qualquer coisa pede para o Uber chamá-lo de “doutor”.
O título, que deveria indicar saber, virou marcador de classe. Não serve mais para identificar conhecimento, mas para medir distância social. É uma forma educada de dizer: “eu estou acima, você está abaixo, e vamos fingir que isso é natural”.
O porteiro sabe disso melhor que qualquer tratado de sociologia. Quando pergunta:
— “O senhor deseja falar com o doutor?” ele não está falando de currículo, está falando de hierarquia.
No fundo, nossa República dos Doutores é um teatro gentil. Um acordo tácito onde todos fingem que acreditam. Os que chamam, os que atendem, os que se ofendem se não forem chamados. Um país onde o título não eleva o saber — apenas reforça o espelho da vaidade.
Talvez um dia descubramos que o verdadeiro doutor é quem escuta, quem respeita, quem trabalha direito, quem não precisa do título para se sentir inteiro.
Até lá, convém manter o protocolo: abra a porta, ajuste a postura, e diga com solenidade:
— “Pois não, doutor.”
Afinal, na República Federativa dos Doutores, o respeito não nasce do conhecimento —
nasce do crachá.
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