Manual de Normalidade

Instruções para não parecer perigoso em público

                Em Itaguaí — hoje elevada à categoria de país emergente, democrático e permanentemente em crise — o doutor Simão Bacamarte jamais fundaria um manicômio. Manicômios dão processo, viram documentário e rendem hashtags. Bacamarte, homem moderno, preferiu algo mais eficiente: um sistema nacional de classificação da normalidade.

                Com apoio irrestrito das autoridades, verba carimbada e discursos inflamados sobre ordem, progresso e bons costumes, decidiu que a loucura precisava ser combatida preventivamente. Não se tratava mais de curar doentes, mas de proteger a sociedade de quem pensa errado.

                No começo, tudo foi feito com critério técnico. Internaram-se os exaltados, os inconformados, os que liam demais e obedeciam pouco. “Casos isolados”, garantiu Bacamarte, enquanto os representantes do povo — sempre muito lúcidos — batiam palmas e pediam ampliação do projeto.

                O sucesso foi imediato. A cada semana surgiam novos diagnósticos. Questionar autoridades virou distúrbio oposicionista agudo. Exigir coerência, sintoma grave. Defender direitos sem autorização prévia, transtorno perigoso, com risco de contágio.

                Curiosamente, quanto mais absurdo o discurso, mais saudável parecia quem o repetia. O sujeito que aceitava qualquer explicação, por mais contraditória que fosse, era considerado perfeitamente são. Alguns, inclusive, passaram a dar palestras sobre racionalidade, ética e patriotismo.

                A Casa Verde — agora descentralizada, digital e invisível — passou a funcionar vinte e quatro horas por dia. Não precisava mais de muros: bastava o medo, a desinformação e um bom enquadramento jurídico. Quem estivesse fora do padrão não era preso; era deslegitimado. Muito mais elegante.

                Com o tempo, a maioria da população passou a colaborar espontaneamente. Denúncias surgiam nas mesas de bar, nas redes sociais, nos grupos de família. O alienista não precisava mais trabalhar. O sistema se autoalimentava.

                Hoje, quem grita é lúcido. Quem duvida, suspeito. Quem reflete, perigoso.

                Mas há um detalhe que raramente entra nos relatórios: quanto mais a normalidade é imposta, menos ela se parece com saúde. O país funciona, é verdade — funciona como funcionam as engrenagens de uma máquina que já não sabe para onde vai, mas gira obedientemente.

                A Casa Verde não precisa mais de médicos. Tem manuais. Não precisa de diagnósticos. Tem narrativas. Não precisa de loucos internados, porque aprendeu algo melhor: convencer os sãos a se comportarem como doentes dóceis.

                Aqui, a lucidez virou desvio. A memória, incômodo. A inteligência, ameaça.

                Bacamarte, fiel à lógica científica, chegou à conclusão inevitável: numa sociedade onde a obediência cega é sinal de sanidade, o verdadeiro louco é quem acredita piamente estar sempre certo.

                Internou-se.

                O gesto foi aplaudido como prova suprema de grandeza moral. Houve homenagens, discursos emocionados e promessa de manter seu legado vivo. Cumpriram.

                Porque o doutor saiu de cena, mas deixou algo melhor: um país perfeitamente funcional, onde pensar virou risco, discordar virou patologia e o delírio passou a ser política pública.

                E assim, quando a loucura se torna critério de governo e a sanidade exige submissão, não é o alienista que precisa ser temido, mas a multidão que aprende a chamá-lo de salvador.

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