Menos livros, mais telas: queda global no hábito da leitura acende alerta de pesquisadores

Uma queda acentuada no número de leitores está sendo registrada em diferentes partes do mundo e preocupa pesquisadores e especialistas em educação e saúde. Um estudo conduzido pela Universidade da Flórida, em parceria com o University College London, revela que, nos Estados Unidos, o número de pessoas que leem por prazer caiu mais de 40% nos últimos 20 anos, com uma redução média de 3% ao ano.

Para Jill Sonke, diretora do Centro de Artes em Medicina da Universidade da Flórida, o dado é alarmante. “É uma queda significativa e muito preocupante”, afirma. O levantamento aponta ainda que o recuo no hábito da leitura é mais intenso entre afro-americanos, pessoas com menor renda ou escolaridade e moradores de áreas rurais, evidenciando desigualdades de acesso à cultura.

Mesmo grupos tradicionalmente associados a índices mais altos de leitura também apresentam retração. “Embora pessoas com maior escolaridade e as mulheres continuem lendo mais, observamos mudanças negativas mesmo dentro desses grupos”, alertou Jessica Bone, pesquisadora sênior de estatística e epidemiologia do University College London.

Brasil tem mais não-leitores do que leitores

No Brasil, o cenário também é considerado crítico. Pela primeira vez, a parcela da população que não lê livros superou a de leitores. Os dados são da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Pró-Livro.

Em 2024, 53% dos entrevistados se declararam não-leitores, contra 47% que afirmaram ler livros. Em 2019, o quadro era inverso: 52% leitores e 48% não-leitores. A pesquisa mostra ainda que as mulheres leem mais do que os homens — cerca de 50 milhões de leitoras, contra 43 milhões de leitores homens no país.

O único dado positivo do levantamento está nas faixas etárias de 11 a 13 anos e de pessoas com mais de 70 anos, que não apresentaram queda no número de leitores.

Europa segue a mesma tendência

Na Europa, a retração do hábito da leitura também é significativa. Segundo uma pesquisa de 2024 do Eurostat, órgão de estatística da União Europeia, quase metade dos cidadãos do bloco não leu sequer um livro ao longo do ano.

A distribuição do hábito, no entanto, varia bastante entre os países. Irlanda, Finlândia, Suécia, França, Dinamarca e Luxemburgo apresentam os maiores índices de leitura, enquanto Itália, Chipre e Romênia ocupam as últimas posições.

Assim como nos Estados Unidos, há diferenças marcantes por idade e sexo: jovens entre 16 e 29 anos leem mais do que pessoas acima de 65 anos, e as mulheres continuam liderando os índices de leitura.

Papel ainda supera o digital

Apesar do avanço da tecnologia, os livros impressos seguem sendo os preferidos da maioria dos leitores. Na Europa, o percentual de pessoas que compram livros físicos é mais que o dobro daqueles que optam por e-books ou audiolivros, segundo o Eurostat.

Pesquisas científicas reforçam essa preferência. Em 2022, um estudo da Universidade de Valência, com mais de 450 mil participantes, concluiu que leitores de livros físicos apresentam maior compreensão do texto e um processamento mais profundo do conteúdo. O efeito é atribuído ao tato e foi ainda mais evidente em crianças em idade escolar.

Leitura também faz bem à saúde

Além dos impactos culturais e educacionais, a ciência aponta benefícios diretos da leitura para a saúde. Manter o hábito de ler regularmente pode reduzir o estresse, melhorar a memória, proteger contra o declínio cognitivo e a demência e até aumentar a expectativa de vida.

Uma pesquisa da Escola de Saúde Pública de Yale revelou que pessoas com hábito regular de leitura vivem, em média, 23 meses a mais do que aquelas que não leem — independentemente de fatores como renda, escolaridade ou condição de saúde.

Especialistas explicam que a leitura, especialmente de romances, estimula a conexão social indireta. Ao vivenciar as experiências dos personagens, o leitor exercita relações humanas e empatia, o que pode reduzir os efeitos da solidão, considerada hoje um fator de risco grave para mortalidade precoce, comparável ao tabagismo e à obesidade.

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