
Olá, legentes!
“O último ônibus já havia partido da estação quando Núncio abriu seu mundo em total solidão. Dentro havia poucas coisas. Tinha uma vela de batismo; um pequeno pagão de cambraia; um terço em madeira; uma muda de roupa; um frasco de perfume doce e vagabundo, quase vazio e uma foto de sua mãe com ele ao colo. No verso do retrato, algo escrito. Ainda sem conhecer as letras, seus fonemas e as formas de se unirem em palavras, Núncio fazia trilhar seus dedos várias vezes naqueles traços, indo e vindo sobre eles, em busca de uma resposta, mesmo que não soubesse a pergunta. Só queria entender o porquê fora deixado sem, sequer, uma palavra falada, sem um grito, sem um tapa, sem um xingo, sem nada.”
O trecho acima é um fragmento de uma das cenas do meu mais recente livro, O ventríloquo de Ybyrá, Editora Urutau, 2026, que narra a história de Núncio, que, entre os seus vários traumas, foi abandonado pela mãe.
Nos últimos dias, viralizaram pelo mundo as imagens do macaco-japonês “Punch”, que foi rejeitado pela mãe — estressada e inexperiente — logo após seu nascimento, em julho do ano passado, no zoológico de Ichikawa, Japão.
Depois de vários meses em ambiente controlado, os responsáveis pelo pequeno primata deram início ao processo gradual de reintegração do filhote aos demais membros do grupo.
As cenas registradas pela equipe do zoológico comoveram milhões, talvez bilhões, de pessoas, que se depararam com as dificuldades do jovem Punch para se integrar ao grupo, mas, principalmente, com seu forte apego ao seu orangotango de pelúcia, objeto-símbolo de conforto e proteção, ainda que inanimado.
Como não se comover com a relação existente entre Punch e seu orangotango de tecido aveludado, sempre disposto a dar acolhimento ao seu rejeitado amigo símio?
Em busca de cuidados, carinho e proteção, nós, humanos, temos nossos orangotangos de pelúcia, nossos objetos transicionais, que buscam preencher nossos lutos, nossas carências.
Ao olharmos para o pequeno Punch e seu pelúcia, facilmente nos identificamos e reconhecemos nossas próprias faltas afetivas, nossos sentimentos de abandono num mundo de bilhões de seres solitários que buscam se adaptar e ser aceitos no grupo.
Tal qual o pobre Punch, somos todos abandonados com nossas pelúcias, ora de pano, ora feitas de rodas e metal a rodarem pelas avenidas ou enfeitar garagens, ora que voam e lotam hangares, que flutuam nas marinas, ora que enfeitam orelhas, braços e pescoços com brilhos de intensa carência.
Pobre Punch, pobres de nós.
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