Olá, legentes!


A Grécia Antiga, mais especificamente, Atenas, “berço da democracia”, não era um lugar tão democrático assim quando o assunto eram as mulheres.
A figura feminina na democracia ateniense era caracterizada por uma exclusão quase total da vida política e pública, apesar de desempenhar um papel fundamental na estrutura social e doméstica. Enquanto a democracia permitia a participação direta dos cidadãos (homens livres, atenienses, maiores de idade), as mulheres não eram consideradas cidadãs com direitos políticos, não podendo votar, atuar como juradas ou ocupar cargos públicos.
O espaço destinado às mulheres era, sobretudo, o ambiente doméstico. Elas viviam no gineceu, parte da casa reservada às atividades femininas, onde administravam o lar, cuidavam dos filhos e supervisionavam as escravas.
Social e civicamente, sua principal função era gerar e educar herdeiros legítimos para a linhagem masculina, assegurando a continuidade da família e, consequentemente, da cidade. Além disso, as mulheres estavam sempre sob o controle de um guardião masculino, o kyrios, geralmente o pai ou o marido, e necessitavam de autorização ou acompanhamento para sair de casa.
Mesmo diante de tantas restrições, algumas mulheres, especialmente aquelas pertencentes a famílias importantes, conseguiam exercer certa influência indireta nos bastidores da vida política, por meio de parentes homens. A educação feminina, no entanto, permanecia limitada às tarefas domésticas e às habilidades manuais, como a tecelagem, reforçando o papel social que lhes era imposto.
Chico Buarque e Augusto Boal, autor da peça teatral com mesmo título da canção, “Mulheres de Atenas”, em 1976, usaram da ironia para despertar no gênero feminino a compreensão de que não poderiam mais se comportar como faziam as mulheres na sociedade patriarcal da Grécia Antiga.
“Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas / Vivem pros seu maridos, orgulho e raça de Atenas / Quando amadas, se perfumam / Se banham com leite, se arrumam / Suas melenas / Quando fustigadas não choram /Se ajoelham, pedem, imploram / Mais duras penas / Cadenas / Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas / Sofrem pros seus maridos, poder e força de Atenas / Quando eles embarcam, soldados / Elas tecem longos bordados / Mil quarentenas / E quando eles voltam sedentos / Querem arrancar violentos / Carícias plenas / Obscenas…”
Vale ressaltar que Chico e Augusto Boal apelaram para o uso da ironia ao comporem a letra, como forma de gerar reflexão e indignação feminina contra a submissão que a sociedade sempre impôs às mulheres, não só de Atenas.
Nesta semana, um bravo guerreiro de Atenas, o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, foi preso no interior de São Paulo, suspeito de ter assassinado a soldado Gisele Alves Santana há um mês.
Dentre os levantamentos realizados na investigação que levaram o tenente-coronel à prisão, textos escritos pelo suspeito à sua esposa se destacam:
“Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa – com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser… Enquanto vc estiver casada comigo e vivendo na minha casa, na minha comanda, as coisas serão do meu jeito… Mulher casada comprometida e que o marido é o único provedor do lar tem regras a cumprir.”
Parece que pouco ou quase nada mudou, mesmo das democracias modernas, onde mulheres até votam e se vestem de soldado, mas ainda são de “Atenas”.
Mirem-se, mulheres!
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