Olá, falantes legentes!
O uso crescente da inteligência artificial na produção textual não representa apenas uma transformação tecnológica do campo editorial, mas um deslocamento estrutural na relação do sujeito com a linguagem. Quando a escrita é automatizada e delegada a sistemas algorítmicos, o que se coloca em jogo não é somente a autoria, mas a própria posição do sujeito enquanto ser falante.
A lógica de produção em massa de textos por IA, orientada pela velocidade, pelo baixo custo e pela repetição, submete a linguagem à racionalidade do mercado. Nesse processo, a palavra deixa de operar como efeito de uma experiência singular para funcionar como produto intercambiável. A escrita, outrora marcada pelo tempo de elaboração, pela hesitação e pelo estilo, passa a ser tratada como simples arranjo eficiente de significantes.
Em meu primeiro livro, Contos em realidade aumentada, precisei de oito meses de dedicação à escrita para produzir oito narrativas curtas que resultaram numa obra de 106 páginas.
Meu segundo livro, O ventríloquo de Ybyrá — 252 páginas —, que acaba de ser lançado pela Urutau, exigiu-me mais de dois anos de escrita criativa para que eu o considerasse suficientemente bom para ser submetido ao crivo de uma editora ao ponto de ser aceito e publicado.
Enquanto isso, já em setembro de 2023, a Amazon definia que “somente” três livros por dia poderiam ser publicados pelo mesmo “autor” na plataforma KDP (Kindle Direct Publishing). Quem escreve três livros por dia? Nem Kafka.
É nesse ponto que o aporte lacaniano se torna decisivo. Para Jacques Lacan, o sujeito não domina a linguagem como um instrumento neutro; ao contrário, é constituído por ela. Inicialmente, o ser humano é um “ser falado”: antes de falar, já está inscrito na ordem simbólica, atravessado pelos significantes do Outro. Contudo, ao longo de sua constituição subjetiva, esse ser falado pode tornar‑se um “ser falante” (parlêtre), isto é, um corpo afetado pela linguagem, pelo gozo e pelo equívoco próprio da lalíngua. — dimensão pré‑simbólica, corporal e pulsional da linguagem.
A escrita humana emerge justamente dessa zona de fricção entre linguagem e corpo, entre significante e gozo. O erro, o lapso, a ambiguidade e o estilo não são defeitos, mas marcas da presença do sujeito. A IA, embora capaz de simular coerência e produzir sentido, não ocupa essa posição: ela opera a linguagem sem ser atravessada por ela. Não há inconsciente, gozo ou sintoma em jogo — apenas cálculo.
Assim, a terceirização da linguagem implica mais do que eficiência discursiva: ela desloca o sujeito da cena simbólica. Ao delegarmos à máquina aquilo que nos permite dizer “eu”, corremos o risco de reduzir a linguagem a um circuito fechado de produção de sentido sem sujeito. A pergunta que se impõe, então, não é se a IA escreve bem, mas se estamos dispostos a abdicar da linguagem como lugar de constituição do Eu.
Preservar a escrita humana é, nesse contexto, preservar a possibilidade de ainda sermos falantes — e não apenas falados por sistemas que organizam a linguagem sem nela existir.
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