

Em Brasília, onde a realidade frequentemente pede licença à ficção, surgiu mais um capítulo digno de antologia: a CPI do Crime Organizado — essa entidade que nasceu com músculos, fez barulho como um trovão tropical e terminou… como uma garoa protocolar de fim de tarde.
Sob a presidência do diligente Senador Fabiano Contarato e com a relatoria combativa do Senador Alessandro Vieira, a comissão parecia disposta a fazer aquilo que raramente se faz em Brasília: incomodar.
E incomodou.
O relatório final, espécie de criatura ousada que resolveu atravessar a praça dos Poderes sem pedir licença, sugeria algo quase herético no ambiente institucional: investigar autoridades de altíssimo escalão. Um gesto que, em certos círculos, é visto como equivalente a sugerir que o elevador social também funciona na descida.
Mas a política, como o teatro, tem seus atos bem ensaiados. E assim, por 6 votos a 4, o relatório foi gentilmente conduzido ao limbo — aquele espaço místico onde ideias inconvenientes repousam ao lado de reformas estruturais e promessas de campanha.
Seria o fim da história? Naturalmente que não. Porque, em Brasília, relatórios rejeitados não morrem — eles se transformam.
E foi nesse momento que a trama ganhou contornos ainda mais sofisticados. O que antes era uma investigação passou a ser objeto de outra: o relator, Alessandro Vieira, viu-se na posição quase literária de personagem que, ao apontar o dedo, descobre que o dedo virou protagonista.
No centro desse movimento, surge a figura sempre onipresente do ministro Gilmar Mendes, cuja trajetória no Supremo já o consagrou como algo entre um jurista, um comentarista institucional e, dependendo do dia, um personagem de realismo mágico constitucional.
A alegação? Abuso de autoridade.
Aqui, o observador mais atento pode experimentar um leve déjà vu: em Brasília, a linha entre investigar e abusar parece ter a espessura de uma folha de papel — e, curiosamente, costuma ser definida por quem está sendo investigado.
O episódio revela uma das mais refinadas engrenagens da República: não se trata de impedir investigações — isso seria grosseiro — mas de elevar o debate a um plano superior, onde se discute… o direito de investigar.
E assim, a CPI que pretendia examinar o crime organizado acabou oferecendo uma aula prática sobre organização — não exatamente do crime, mas das instituições.
No fim, todos saem com algo: a comissão, com sua breve existência histórica; o relator, com notoriedade ampliada; os investigados, com a confortável reafirmação de seus limites institucionais; e o público, com mais um capítulo do eterno seriado “República Federativa do Enredo Inesperado”.
E talvez essa seja a grande lição: em Brasília, não importa muito o conteúdo do relatório. O importante é lembrar que, antes de qualquer conclusão, há sempre uma pergunta maior —
quem está autorizado a concluir?
E essa, convenhamos, dificilmente entra em votação.
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