Drama em campo

Olá, legentes!

Há, no imaginário brasileiro, uma tendência a transformar sofrimento em encenação, como se ela fosse nos salvar de alguma forma. Encenar é melhor do que viver.

A maior edição da história das Copas, com seus 104 jogos, 48 seleções e 16 cidades-sede espalhadas por três países — Canadá, México e Estados Unidos —, está prestes a começar, e a camisa 10 de nosso escrete está sub judice — ou sub medicus, se não me falha o latim.

Assim estamos nós, à beira da Copa do Mundo da FIFA 26, discutindo se Neymar vai ou não vai, como se a pátria dependesse menos de ministérios do que da panturrilha lesionada em grau 2, do menisco do joelho esquerdo, do quinto metatarso do pé direito, da instabilidade do tornozelo ou das coxas do menino Ney.

A alma nacional, que sempre adorou um suspense, transformou a convocação em romance de folhetim: a vizinha jura que ele vai; o sujeito do táxi decreta que não; o homem do boteco, com a solenidade de um profeta de esquina, sentencia que depende “do ambiente”. E o ambiente, no Brasil, é sempre uma entidade metafísica.

Depois veio o escândalo heráldico — exagerei —: o álbum da Panini surgiu sem a figurinha de Neymar. Vejam bem: faltava o homem no papel antes mesmo de faltar ou sobrar no gramado.

O torcedor abriu a página do Brasil e teve a sensação de entrar numa sala de família sem o retrato do parente mais falado. A editora explicou probabilidades, convocações antigas, cálculos italianos. Explicou tudo, isto é, não explicou nada. No íntimo, o povo queria apenas o seguinte milagre: colar no álbum a certeza de que lhe arrancaram da vida. Mais tarde, soube-se que haveria atualização e que o craque entraria no pacote de correção, como quem entra atrasado na própria biografia — se é que ele vai colar mesmo na Copa…

Mas o caso não é só futebol. Há drama maior em campo. O brasileiro, neste ano, pensa diante da urna que se avizinha como anda diante do álbum: folheia, hesita, troca repetidas, desconfia da rara e, no fim, pergunta ao primeiro desconhecido da fila o que convém fazer. Uns querem o salvador da lavoura; outros preferem o síndico do apocalipse; há os que desejam apenas alguém que não lhes estrague o domingo. Cada esquina tem uma filosofia, cada mesa de bar, uma ciência política sendo defendida com todo o proselitismo possível, e cada grupo de família é um hospício organizado.

E assim seguimos: sem saber quem entra em campo, sem saber quem merece figurinha, sem saber quem escalar para governar. O brasileiro, no fundo, não decide: ele torce, cochicha, palpita e espera que, no apagar das luzes, alguém lhe entregue a escalação pronta — de preferência sem prorrogação, sem segundo turno.

No fim, o brasileiro faz com a própria esperança o que faz com o álbum: alisa a página vazia, sopra a poeira, consulta o vizinho e espera que a figurinha certa apareça no pacote seguinte. E, enquanto não aparece, vai chamando de destino aquilo que, muitas vezes, já era escalação.

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