Prisioneiros de uma Lembrança

Recentemente, ao me deparar mais uma vez com discussões acerca do filme Amor, Estranho Amor, chamou-me a atenção um aspecto que pouco tinha a ver com o cinema. Não eram as cenas, a direção ou o roteiro que despertavam minha curiosidade.

                Era algo mais silencioso. Mais humano e que transcendia a própria obra.

                Perguntei-me quantos anos uma lembrança consegue sobreviver.

                E mais: até que ponto uma única lembrança pode obscurecer toda uma existência?

                Foi então que compreendi que aquela discussão não falava apenas de um filme ou de seus personagens. Falava da maneira como nós, seres humanos, escolhemos recordar os outros.

                E de como o tempo costuma ser um escultor paciente.

                Trabalha em silêncio, enquanto dormimos, amamos, sofremos e seguimos adiante. Dia após dia, vai aparando excessos, suavizando arestas e acrescentando novas camadas à história que carregamos. Nada permanece exatamente como era. As pessoas mudam. Amadurecem. Aprendem. Constroem novos caminhos. Escrevem outros capítulos.

                Mas, às vezes, o tempo falha.

                Em vez de escultor, transforma-se em carcereiro.

                Escolhe um único instante da vida de alguém, fecha-o dentro da memória coletiva e passa a agir como se nada mais tivesse acontecido depois dali.

                É um fenômeno curioso.

                Quantas vezes conhecemos alguém por uma única fotografia e ignoramos o álbum inteiro?

                Quantas vezes julgamos uma existência por um episódio isolado, esquecendo-nos de que toda vida é uma sucessão de dias, escolhas, acertos, erros, recomeços e conquistas?

                A sociedade possui uma estranha facilidade para simplificar aquilo que é complexo.

                Talvez porque seja mais confortável guardar uma única lembrança do que compreender uma trajetória inteira.

                Com os artistas, essa tendência costuma ser ainda mais severa.

                Uma obra ganha notoriedade, uma cena provoca repercussão, um personagem chama atenção e, de repente, décadas de trabalho passam a caminhar atrás daquele único acontecimento, como se fossem sua sombra.

                O público, muitas vezes sem perceber, deixa de enxergar a pessoa e passa a contemplar apenas a moldura de uma imagem cristalizada, esquecendo-se de que a vida continuou sendo pintada muito depois daquele retrato.

                E a lembrança raramente é justa.

                Porque seres humanos não cabem em manchetes.

                Não cabem em recortes.

                Não cabem em alguns minutos de uma produção artística.

                Atrás de cada ator, atriz ou profissional das artes existe uma história muito maior do que qualquer personagem. Existem anos de dedicação, estudo, renúncias, sucessos, fracassos, alegrias e dores que jamais aparecem nos créditos finais.

                A arte pertence ao seu tempo.

                As pessoas, não.

                Elas seguem vivendo depois que as cortinas se fecham. Os personagens permanecem onde foram criados. Os seres humanos seguem adiante. Continuam trabalhando, amando, sonhando, envelhecendo e contribuindo para o mundo muito além das páginas que um dia interpretaram ou ajudaram a escrever.

                Por isso, talvez seja chegada a hora de exercitarmos um olhar mais generoso.

                Não para apagar o passado.

                O passado não deve ser apagado.

                Mas para compreendê-lo dentro de suas circunstâncias e, sobretudo, para reconhecer que ninguém pode ser reduzido a um único episódio de sua existência.

                Fernando Pessoa, que tão bem compreendia os labirintos da alma humana, escreveu que cada um de nós é muitos.

                Talvez aí resida a maior injustiça dos julgamentos apressados: tentar resumir a riqueza de uma existência à estreiteza de uma única lembrança.

                A maturidade consiste justamente nisso: perceber que a vida humana é maior do que os rótulos que lhe atribuem.

                Maior do que as polêmicas.

Maior do que os julgamentos apressados.

                Maior até mesmo do que as lembranças que insistem em sobreviver ao tempo.

                Porque toda pessoa merece ser vista por inteiro.

                E não apenas pela fresta estreita de uma memória escolhida pelos outros.

                No fim das contas, talvez a verdadeira justiça da vida esteja justamente em reconhecer que somos todos mais amplos do que nossos retratos mais conhecidos. Mais profundos do que nossas circunstâncias. Mais complexos do que os rótulos que nos impõem.

                Ninguém é apenas o que fez.

                Ninguém é apenas o que disseram dele.

                Ninguém é apenas a fotografia que o tempo escolheu conservar.

                Somos, como sugeria Mário Quintana, uma biblioteca inteira de experiências, afetos, sonhos, erros e recomeços.

                E nenhuma vida merece ser lida por uma única página.

                Porque a existência humana não se resume a uma fotografia esquecida numa gaveta do tempo.

                Somos também os sonhos que vieram depois.

                Os afetos que cultivamos.

                As dores que vencemos.

                As páginas que ainda escrevemos.

                E nenhuma lembrança, por mais persistente que seja, deveria aprisionar aquilo que a vida, teimosa e generosa, insistiu em fazer florescer.

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