A redução da poluição do ar pode estar contribuindo para uma aceleração recente do aquecimento global, segundo estudos científicos. A explicação está na queda das emissões de dióxido de enxofre, substância que, apesar de prejudicial à saúde e ao meio ambiente, produz partículas capazes de refletir parte da luz solar de volta ao espaço e provocar um efeito temporário de resfriamento do planeta.
A discussão ganhou força após o vice-líder do partido britânico Reform UK, Richard Tice, afirmar nas redes sociais que o ar mais limpo, e não o dióxido de carbono (CO₂), estaria provocando o aumento das temperaturas. A afirmação, porém, distorce a conclusão científica: o CO₂ continua sendo o principal responsável pelo aquecimento provocado pelas atividades humanas. A redução dos aerossóis apenas retira parte do efeito de resfriamento que existia anteriormente.
O dióxido de enxofre é liberado principalmente pela queima de combustíveis fósseis. Na atmosfera, ele contribui para a formação de aerossóis de sulfato, partículas que refletem a radiação solar e também podem alterar as características das nuvens, fazendo com que algumas reflitam mais luz.
Nas últimas décadas, medidas de combate à poluição e à chuva ácida reduziram significativamente essas emissões na Europa, América do Norte e China. O setor de navegação também passou a adotar regras mais rígidas para diminuir a quantidade de enxofre liberada pelos navios.
Como os aerossóis permanecem na atmosfera por apenas dias ou semanas, o efeito de resfriamento desaparece rapidamente quando suas emissões são reduzidas. Um estudo estima que a diminuição da poluição por enxofre tenha contribuído para elevar em cerca de 0,5 °C o aquecimento registrado durante o verão no centro-oeste da Europa desde 1980.
Apesar disso, os gases de efeito estufa continuam tendo influência muito maior. Estimativas citadas pelos pesquisadores apontam que esses gases acrescentam atualmente cerca de 0,2 °C de aquecimento global por década, enquanto a redução dos aerossóis poderia representar aproximadamente 0,05 °C a 0,1 °C por década.
Outro fator investigado pelos cientistas são as nuvens. O aumento da temperatura dos oceanos pode reduzir a cobertura de nuvens baixas em algumas regiões. Como essas nuvens refletem a luz solar e o oceano é mais escuro, sua redução permite que mais radiação seja absorvida pela superfície, aumentando o aquecimento.
Pesquisadores também identificaram um crescimento significativo no desequilíbrio energético da Terra, situação em que o planeta absorve mais energia do Sol do que consegue devolver ao espaço. Segundo uma das análises, esse desequilíbrio praticamente triplicou nas últimas duas décadas.
Os resultados levantam uma preocupação adicional: a possibilidade de o sistema climático ser mais sensível ao aumento dos gases de efeito estufa do que algumas estimativas anteriores indicavam. Uma análise aponta que a mesma quantidade de emissões poderia provocar cerca de 25% mais aquecimento do que se imaginava.
Ainda assim, os cientistas ressaltam que existem incertezas e que os dados disponíveis abrangem períodos relativamente curtos. Por isso, os resultados não significam que as projeções climáticas anteriores estejam definitivamente incorretas.
A principal conclusão, porém, permanece clara: a redução da poluição por enxofre pode retirar uma parcela do resfriamento atmosférico, mas não é a causa do aquecimento global. O aumento das concentrações de gases de efeito estufa, especialmente o CO₂ produzido pela queima de combustíveis fósseis, continua sendo o principal fator do aumento das temperaturas no planeta.
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