Os Estados Unidos confirmaram a quinta morte por sarampo em meio ao pior surto da doença desde que o país declarou o sarampo eliminado, em 2000. Mais de 3,6 mil casos foram registrados somente neste ano, número 59% superior ao total contabilizado durante todo o ano passado.
A quinta vítima não teve a idade ou outras informações divulgadas. As quatro mortes anteriores envolveram pessoas que não estavam imunizadas, entre elas dois bebês e dois adultos.
O cenário preocupa especialistas porque a cobertura vacinal contra o sarampo vem caindo nos Estados Unidos há anos. Para impedir a circulação do vírus, uma das doenças mais contagiosas conhecidas, a cobertura precisa permanecer acima de 95% da população. Esse índice é considerado necessário para manter a chamada imunidade coletiva e dificultar a transmissão mesmo quando há casos importados.
Dados do sistema de saúde pública norte-americano indicam que, em 2011, 21 dos 44 estados com informações disponíveis apresentavam cobertura acima de 95%. Atualmente, apenas 10 dos 49 estados avaliados mantêm esse nível de proteção.
A queda se intensificou durante a pandemia de Covid-19. Entre 2020 e 2021, o número de estados acima da marca de 95% caiu de 20 para 16. Desde então, a cobertura não recuperou os níveis anteriores e continuou em queda em diversas regiões.
Uma estimativa baseada nos dados nacionais aponta que cerca de 1,7 milhão de crianças podem ter ficado sem a imunização completa contra o sarampo nos últimos anos. Especialistas também alertam que os números estaduais podem esconder áreas com índices ainda mais baixos de vacinação.
Esse é um dos fatores apontados para explicar a concentração de casos em determinadas regiões. A vacinação não ocorre de maneira uniforme dentro dos estados, criando comunidades com grande número de pessoas suscetíveis ao vírus.
A situação é especialmente preocupante porque o sarampo possui elevada capacidade de transmissão. Quando a cobertura cai, o vírus encontra mais pessoas sem proteção e pode provocar surtos localizados que posteriormente se espalham para outras áreas.
Vacina e desinformação
A redução da vacinação também ocorre em meio ao crescimento de movimentos antivacinação nos Estados Unidos. Discursos que relacionam a vacina tríplice viral ao autismo ganharam espaço nos últimos anos, embora essa associação não tenha sido comprovada pela ciência.
A hipótese surgiu a partir de um estudo publicado em 1998, posteriormente considerado fraudulento e retirado pela revista científica que o publicou. Pesquisas realizadas posteriormente, envolvendo milhões de crianças em diferentes países, não encontraram relação causal entre a vacina e o autismo.
O debate sobre vacinação também passou a ocupar espaço na política norte-americana, com manifestações públicas do presidente Donald Trump e do secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., sobre o tema.
Outro desafio está relacionado ao acesso à vacinação. Diferentemente do Brasil, os Estados Unidos não possuem um sistema universal de saúde como o SUS. O acesso às vacinas depende, em diferentes situações, de seguros de saúde ou de programas públicos específicos, o que pode dificultar ações de imunização em algumas comunidades.
O que acontece no Brasil
No Brasil, a cobertura completa contra o sarampo, considerando as duas doses da vacina tríplice viral, permanece abaixo dos 80%, distante dos 95% considerados necessários para impedir a circulação sustentada do vírus.
Mesmo com a cobertura abaixo do ideal, o país registrou 42 casos neste ano, segundo os dados apresentados no levantamento. A maior parte está concentrada no estado de São Paulo, com 36 ocorrências.
O Brasil já enfrentou uma situação de perda de controle do sarampo. Em 2019, o país perdeu o certificado de eliminação da doença após a retomada da circulação do vírus. O status foi recuperado em 2024, após ações de vacinação, vigilância epidemiológica e controle dos casos.
Especialistas ressaltam que a manutenção desse resultado depende da continuidade da vacinação e da identificação rápida de novos casos. A existência de um sistema público de vacinação e de vigilância epidemiológica permite que as autoridades adotem medidas de bloqueio quando a doença é identificada.
A vacina tríplice viral protege contra sarampo, caxumba e rubéola e faz parte do calendário de vacinação brasileiro. A recomendação é manter a carteira de vacinação atualizada, especialmente entre crianças, para evitar o crescimento do número de pessoas suscetíveis à doença.
O cenário norte-americano serve de alerta para o impacto que a redução prolongada da cobertura vacinal pode provocar: quanto maior o número de pessoas sem proteção, maior é o espaço para que um vírus altamente transmissível volte a circular e provoque novos surtos.
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