Ou quando a maioria transforma a estupidez em virtude
Publiquei, há poucos dias, uma crônica intitulada “É proibido pensar!”, com o subtítulo “Ou a deliciosa liberdade de ser um perfeito idiota”.
Imaginei que, depois de publicada, o assunto estivesse encerrado. Ledo engano! Continuei pensando. E pensar, como já adverti, tornou-se uma atividade perigosa, sobretudo quando chegamos a conclusões que podem desagradar a muita gente.
Pois bem, resolvi reincidir. E aviso: esta crônica pode doer. Não por maldade, mas porque certas verdades, quando encontram feridas abertas, costumam arder.
Bertrand Russell, filósofo britânico, já manifestava preocupação com a segurança dos ignorantes em suas próprias certezas e com as dúvidas que atormentam os inteligentes.
Há também uma frase atribuída a ele, embora de autoria não comprovada, segundo a qual os idiotas acabariam dominando o mundo, não pela capacidade, mas pela quantidade.
Confesso que a ideia me assusta.
Não porque tenha alguma coisa contra os idiotas. Deus me livre! Alguns são excelentes pessoas, ótimos vizinhos e até parentes estimadíssimos. O problema começa quando resolvem governar a vida dos outros, ensinar aquilo que desconhecem e transformar a própria ignorância em lei universal.
E, convenhamos, quantidade nunca foi garantia de qualidade. Se fosse, mosquito seria patrimônio da humanidade!
O que me preocupa não é a existência da ignorância, mas sua promoção social. Antigamente, quem não sabia procurava aprender. Hoje, quem não sabe abre um canal na internet, conquista seguidores e, dependendo da desenvoltura, torna-se especialista em qualquer assunto.
Há quem nunca tenha lido um livro, mas recomende o fechamento de bibliotecas. Quem desconhece a Constituição, mas pretende reformá-la. Quem não consegue administrar o orçamento doméstico, mas possui soluções definitivas para a economia nacional.
E tudo com uma convicção invejável!
Muito antes de Russell, Platão já examinava a difícil convivência entre a justiça e as aparências. Em A República, pela voz de Glauco, apresenta o destino de um homem verdadeiramente justo e íntegro que, embora praticasse a justiça em sua mais elevada expressão, seria considerado injusto pela sociedade e, por isso, perseguido, torturado e até crucificado.
Não por ter cometido alguma injustiça, mas porque sua integridade, desprovida do reconhecimento dos homens, não o protegeria da crueldade daqueles que confundem a aparência com a verdade.
Passaram-se cerca de dois mil e quatrocentos anos e, pelo visto, a humanidade continua confundindo honestidade com ingenuidade, justiça com inconveniência e integridade com falta de esperteza. A diferença é que, hoje, antes de crucificarem o justo, provavelmente o cancelariam nas redes sociais!
Hoje, a verdade precisa ser simpática, a justiça precisa ser conveniente e a honestidade, de preferência, não deve atrapalhar os negócios.
A maioria, quando deixa de pensar e passa apenas a seguir, torna-se terreno fértil para qualquer aventureiro.
Prometa vantagens sem sacrifícios, direitos sem deveres, prosperidade sem trabalho e felicidade sem responsabilidade. Pronto! Está preparado o discurso para conquistar aplausos.
Se acrescentar uma música animada, algumas frases de efeito e um sorriso cuidadosamente ensaiado, talvez conquiste até uma eleição.
Enquanto isso, a mediocridade ganha homenagens, a competência desperta suspeitas e a excelência precisa pedir desculpas por existir.
Nas redes sociais, então, o espetáculo é completo.
A vaidade ganhou palco, a ignorância conquistou microfone e a sensatez, coitada, foi convidada a se retirar por falta de seguidores.
A mentira, quando bem apresentada, recebe milhares de curtidas. A verdade, quando exige reflexão, corre o risco de ser ignorada.
E quem pensa diferente? Ah, esse é um caso perdido! Recebe um rótulo, uma ofensa e, se insistir em argumentar, acaba condenado pelo tribunal dos polegares.
Mas não quero cometer a mesma injustiça que estou criticando. A maioria não é necessariamente ignorante, assim como a minoria não possui o monopólio da inteligência. A estupidez, infelizmente, é bastante democrática: distribui-se por todas as classes sociais, profissões e níveis de escolaridade.
Aliás, conheço pessoas sem diplomas que possuem uma sabedoria admirável e outras, carregadas de títulos, que não conseguem enxergar um palmo além da própria vaidade.
O verdadeiro problema não está na quantidade de pessoas, mas na quantidade de pessoas que desistiram de pensar.
E é justamente aqui que desejo conversar com você, meu leitor.
Você que, às vezes, observa o mundo e sente que alguma coisa está fora do lugar. Que se incomoda com a injustiça, que não consegue aplaudir a desonestidade e que prefere uma verdade desagradável a uma mentira confortadora.
Talvez já tenham chamado você de exigente demais, sério demais ou inconveniente demais.
Não se preocupe tanto com os adjetivos. Muitas vezes, o que chamam de inconveniência é apenas a coragem de não concordar com o absurdo.
Mas cuidado! Não transforme sua indignação em superioridade. Quem se julga melhor do que todos já começou a percorrer o mesmo caminho daqueles que critica.
Pensar exige humildade. Exige reconhecer erros, rever convicções e admitir que o mundo não foi criado para confirmar nossas opiniões.
O caráter, por sua vez, não se constrói diante das câmeras, nem depende de aplausos. Revela-se nas pequenas escolhas, na palavra cumprida, na honestidade silenciosa e na dignidade preservada quando ninguém está olhando.
É muito fácil parecer honesto diante de uma plateia. Difícil é continuar honesto quando a desonestidade oferece vantagens e não há testemunhas.
Por isso, não espere que a multidão lhe conceda autorização para ser íntegro. Faça o que considera correto, mesmo quando o caminho parecer solitário.
Afinal, a consciência não precisa de seguidores, e a dignidade não se mede pelo número de curtidas.
Quanto a mim, continuarei pensando, duvidando e, certamente, cometendo meus próprios erros. Não tenho a pretensão de ser dono da verdade. Já me basta o trabalho que dá procurá-la!
E se a maioria resolver descer a ladeira da mediocridade, não me sentirei obrigado a acompanhá-la.
Prefiro continuar subindo, ainda que devagar, tropeçando nas pedras e, de vez em quando, precisando parar para recuperar o fôlego.
Talvez não chegue ao topo. Mas, pelo menos, não terei descido por comodismo.
Na crônica anterior, confessei meu receio de pensar e acabar pagando imposto por isso. Agora, depois de refletir um pouco mais, cheguei a uma conclusão ainda mais preocupante.
Se algum dia a estupidez conquistar definitivamente o poder, talvez nem seja necessário proibir o pensamento.
Bastará convencer as pessoas de que pensar é uma perda de tempo.
E, pelo andar da carruagem, receio que já estejamos pagando a passagem!
Só espero que ainda haja alguém disposto a perguntar para onde estamos indo.
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