

Houve um tempo em que as pessoas acreditavam nas sombras da parede de uma caverna. Hoje, mais modernas, acreditam nas fotos com filtro, nas frases motivacionais em fonte cursiva e nos sorrisos impecáveis de quem nunca acorda de mau humor.
Platão, se tivesse Instagram, talvez nem precisasse escrever A República. Bastaria um stories: “Cuidado com o que você chama de realidade”. Mas Platão viveu num tempo analógico, quando as ilusões vinham projetadas por tochas e não por algoritmos. Ainda assim, acertou em cheio.
Na famosa Alegoria da Caverna, as pessoas nasciam acorrentadas, olhando para a parede, acreditando que aquelas sombras distorcidas eram o mundo real. Nunca haviam visto o sol, nunca haviam saído dali. Hoje, ninguém nasce acorrentado — a gente aceita os termos de uso voluntariamente.
A diferença é que agora a caverna tem Wi-Fi.
Rolamos o dedo na tela como quem passa contas de um rosário moderno: vidas perfeitas, cafés maravilhosos, corpos esculturais, famílias felizes, viagens incríveis, gente produtiva às seis da manhã sorrindo para a própria disciplina. Tudo muito iluminado, tudo muito enquadrado. Nenhuma foto do boleto, da crise existencial ou da pia cheia de louça.
E nós acreditamos.
Acreditamos que aquela felicidade é padrão, que aquela vida é possível todos os dias, que o problema está conosco — afinal, se todo mundo está bem, alguém está errado… e esse alguém costuma ser quem está do lado de cá da tela.
De repente, passamos a desejar o que não precisamos, competir com quem nem conhecemos e medir nosso valor por curtidas que somem em 24 horas. Trabalhamos mais, descansamos menos, sorrimos em fotos e choramos no banheiro. Tudo em nome de uma vida “perfeita”, que só existe mesmo… na parede da caverna digital.
O curioso é que, assim como no mito de Platão, sair da caverna continua sendo desconfortável. A luz incomoda. Questionar dói. Desligar o celular provoca uma espécie de abstinência emocional. Mas, aos poucos, os olhos se ajustam. A gente percebe que o sol não precisa de filtro, que a realidade não cabe num post e que viver é infinitamente mais bagunçado — e mais bonito — do que aparenta.
Talvez a vida não seja bela e perfeita o tempo todo. Talvez seja cheia de falhas, pausas, tropeços e dias em que nada rende. E está tudo bem. Porque viver não é atuar num teatro de sombras, mas experimentar o mundo fora da caverna, com luz demais, sombra também, e verdade suficiente para justificar cada imperfeição.
Platão ficaria orgulhoso. Ou, no mínimo, pediria que a gente largasse o celular por cinco minutos e fosse olhar o sol.
Sem postar.
Quer saber as últimas notícias de Valinhos, siga o nosso Instagram: https://www.instagram.com/jornalterceiravisao/