Que roteirista é esse?

“Tadeu, que roteirista é esse?” Foi o que Ana Paula Renault perguntou ao apresentador do BBB 26, no último Paredão da temporada, ao saber da morte de Oscar Schmidt, irmão de Tadeu, ocorrida dois dias antes de ela receber a notícia da morte do próprio pai, Gerardo Renault, quando ainda aguardava a decisão do público, que poderia eliminá-la do jogo — um dos momentos mais dramáticos da televisão brasileira.

Dez anos após a expulsão que a transformou em figura pública, Ana Paula Renault voltou à casa mais vigiada do país para encarar o conflito entre essência e imagem — e descobrir se existe “retorno” quando o roteiro é escrito pela vida.

Quando um reality show ultrapassa a “realidade” e deixa emergir o real — a dor indizível, o sentimento sem palavras, aquilo que não se deixa simbolizar, como diria Lacan — o que fica não é apenas entretenimento. Fica uma biografia em construção. No caso de Ana Paula Renault, essa biografia ganhou duas temporadas do Big Brother Brasil separadas por uma década: 2016 e 2026.

Mas e a pergunta de Ana Paula? — roteirista; roteiro…

Em 1949, Joseph Campbell escreveu em “O Herói de Mil Faces”:

“A aventura usual do herói começa com alguém de quem algo foi tirado, ou que sente que falta algo na experiência normal disponível ou permitida aos membros da sociedade. A pessoa, então, embarca em uma série de aventuras além do comum, seja para recuperar o que foi perdido ou para descobrir algum elixir que dá vida. Geralmente é um ciclo, uma vinda e uma volta.”

A saga Star Wars, Rocky (Balboa) e Matrix são exemplos clássicos do método desenvolvido por Campbell, aplicado à elaboração de roteiros famosos.

Na Jornada do Herói, a história começa no “mundo comum”. Antes de 2016, Ana Paula era mais um nome fora do radar nacional. O “chamado” veio com a seleção para o BBB 16, e ela o atendeu sem a hesitação típica dos protagonistas clássicos: entrou com energia alta, voz firme e uma disposição para o embate que rapidamente reorganizou o enredo da casa ao redor dela.

Vieram, então, as “provas, aliados e inimigos”: falas que viralizaram, alianças instáveis, rivalidades claras. O BBB, por definição, testa limites — e Ana Paula parecia testá-los de volta.

A “caverna oculta” — aquele ponto em que o herói se aproxima do lugar mais perigoso — foi o próprio confinamento transformado em panela de pressão. A provação, em 2016, não terminou com vitória dentro das regras: a expulsão funcionou como morte simbólica. Na cartilha clássica, seria o fim; no reality, foi o começo de outra narrativa. Fora da casa, Ana Paula recebeu a recompensa que o programa não dá em dinheiro: capital simbólico. Ganhou visibilidade, virou presença midiática, comentarista, referência de um estilo de jogo que mistura sinceridade, explosão e espetáculo.

O “retorno com o elixir” aconteceu ao longo dos dez anos seguintes. A experiência — e o julgamento — do público funcionou como mentoria coletiva, um espelho permanente. A fama, porém, tem custos: saúde mental, física e financeira entram na conta quando a pessoa real passa a disputar espaço com a personagem. O que a jornada ensinou não foi apenas como se proteger do jogo, mas como sobreviver ao pós-jogo, quando a arena muda e as câmeras continuam apontadas.

Em 2026, o chamado se repete — e isso é raro. Voltar ao BBB não é recomeçar: é entrar em um segundo ciclo, como veterana que conhece o labirinto. A Ana Paula que retorna já sabe como o jogo fabrica versões, como o público cobra coerência e como qualquer silêncio vira narrativa. O drama, agora, é menos “sobreviver à casa” e mais negociar a fronteira entre essência e imagem: quem ela é quando não precisa provar nada — e quem esperam que ela seja para manter o mito em pé.

Em dado momento, ela disse como quem tenta prender o chão com palavras: “não está fazendo sentido, eu não estou entendendo nada, não faz sentido algum”. Era a linguagem do cansaço diante do excesso, um tipo de vertigem ontológica em horário nobre.

A saga de Ana Paula Renault nos dois Big Brothers não cabe perfeitamente na fórmula da Jornada do Herói de Campbell — e talvez esteja aí sua força. A força de um não-roteiro, que é beleza e caos, porque é vida.

Ela não venceu a provação em 2016, mas voltou carregando um elixir só dela e para além da “realidade” fez de sua nova batalha em 2026, seu próprio legado. Mesmo diante da mais absurda dor, que foi a perda de seu pai, ela foi capaz de elaborar o impossível — o “real” lacaniano — e sair como a grande campeã do BBB 26

Pensando sobre a pergunta de Ana Paula Renault, talvez nem haja um roteirista ou qualquer roteiro. Talvez seja só a beleza e o caos, mas lidar com essa possibilidade é desconfortável demais.

Não à toa, ao encerrar a segunda temporada da saga Renault, Tadeu disse: “Todo reality show deveria ter Ana Paula Renault. Parabéns, Ana Paula! O BBB 26 sempre foi seu.” Afinal, quem dera pudéssemos sempre replicar roteiros vencedores em nossas vidas.

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