

Olá, legente!
Do sofá de casa, com o controle remoto na mão, o que você controla? As câmeras do Big Brother Brasil? — esse experimento social onde tudo é acirrado, controverso, bipolar, caótico, explosivo, colorido e, no fundo, um “big” reflexo caricato do que vivemos aqui fora?
Não é raro me perguntar se o reality é uma cópia da vida ou se a vida imita a algazarra do reality, já que as estratégias, traições e alianças parecem se repetir em todas as esferas – das mais íntimas às coletivas.
Mas logo, num “zap” do controle, desvio para outro BBB: aquele do boi, da bala e da bíblia. Outro universo caótico, onde o que deveria ser arrumado vive fora do lugar, invadido por ruídos e corrupções diárias em câmaras apocalípticas.
Um novo “zap” e outro BBB: agora Master premium (bancos, Bolsa, business) e muita bandidagem — com “B”.
Atordoado entre um e outro cenário, fecho os olhos por um instante, e penso nos pequenos prazeres que, ao serem encontrados, chegam a surpreender – uma xícara de café quente, uma notícia boa, uma esquina tranquila. Coisas BBB (boas, bonitas e baratas) — se bem que não está fácil encontrar café barato, notícia boa e alguma esquina tranquila.
Outro “zap” no remoto e surgem manchetes que realmente têm me pegado e que são do reality BBB (bomba, bomba, bomba): com eliminações reais, de uma época em que explosões nada metafóricas estouram na Ucrânia, em Gaza, na Síria, no Irã, na Venezuela, e o eco chega aqui, batendo nas nossas portas com um estampido incômodo: BBBs caindo sobre nossas cabeças, e quase ninguém parece disposto a reagir.
Nessas horas, lembro de Hannah Arendt sussurrando em algum canto da memória: “Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança.” Olho para o noticiário e é difícil discordar. Há líderes que invadem, tomam o que querem, sem cerimônia nem vergonha. E o espantoso é que, do outro lado — que nem sei qual —, quem deveria proteger os mais frágeis ou se posicionar, se mantém neutro ou, pior, aprova a invasão.
Saiu até uma pesquisa: 46% dos brasileiros acharam uma boa ideia a ação militar dos Estados Unidos na Venezuela; 39% desaprovaram. Fico pensando: se achamos normal alguém entrar na casa do vizinho, mexer nas coisas dele, usar a geladeira, o sofá e até a cama com tudo que ela dá de “direito”, o que impede que façam o mesmo conosco amanhã? É a crônica do descaso anunciado.
Lembro de outro texto, um poema atribuído a Brecht, mas que, dizem, nasceu mesmo na boca do pastor Martin Niemöller lá por 1946. Aquela história: primeiro levaram os negros, depois os operários, depois os miseráveis, depois os desempregados, e, quando vieram me levar, já era tarde. Eu, que não me importei antes, agora sou invisível. Um aviso que atravessa as décadas e cai feito luva nesses dias caóticos.
E se no Big Brother Brasil as pessoas votam mais contra do que a favor, eliminando não quem merece ficar, mas quem ameaça o seu jogo, não é diferente no tabuleiro internacional. Ali, o mérito cede lugar à esperteza, e até as regras mais básicas viram papel amassado no fundo da gaveta. Donald Trump, por exemplo, parece jogar por regras próprias. Groenlândia, Colômbia, qualquer território pode virar alvo, desde que ninguém se importe o suficiente para impedir.
No fim, a crônica é essa: vivemos num tempo em que a indiferença é regra. Entre reality shows e realidades brutais, estamos todos assistindo, muitas vezes de braços cruzados, esperando para ver quem é o próximo “eliminado” do nosso próprio mundo. E assim, seguimos, até que caia a ficha – ou a bomba – bem no centro da nossa sala.
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