Ao Orelha

Olá, legentes!

Hoje, eu peço a benção ao mestre Graciliano, que com Baleia me serviu de apoio para escrever esse texto.

O cão Orelha não estava para morrer.  Não tinha emagrecido, nem o pelo caía-lhe, nem se avultavam suas costelas, pois era bem alimentado. Não tinha manchas escuras a supurar e a sangrar nem vivia coberto de moscas. Orelha não tinha chagas na boca ou inchação nos beiços que pudessem dificultar comer aquilo que lhe davam de bom grado.

 Muita gente dali dava de comer e beber ao Orelha — cão sem raça definida, canino miscigenado —, animal comunitário da Praia Brava, lá de Santa Catarina — nem tão santa mais.

Para o Orelha a Praia Brava nunca lhe fora brava: foi mansa por quase dez anos ou perto disso; idade que ele aparentava ter quando a coisa toda se deu.

Orelha era cão que vivia por ali, sempre por ali, e todo mundo o conhecia, sabia de seu jeito andar, de sorrir com os olhos e com o rabo, de brincar com bola, de correr pulando de lado, de latir falando sem raiva, só falando. Orelha só latia de conversa, de agradecimento, nunca de ofensa ou raiva não.

Orelha tinha um jeito humano de ser, de se expressar: só que de humano bom de coração, coisa que nem todos são.

A Praia Brava nunca havia maltratado o Orelha, até outro dia.

Mas não foi bem a praia, nem foi toda a gente de lá. Aliás nem foi gente… E também não foi bicho.

Tem gente que não é gente, e que não dá para chamar de bicho, porque ofende aos bichos todos.

Há bicho que nem o Orelha, que é mais gente do que muita gente.

E nessa, das coisas não-gente-não-bicho: seres de peitos ocos, corpos sem almas, foi que as coisas sem nomes e que não se pode nominar tiraram a vida do cão Orelha.

Não foi com espingarda de pederneira, foi com pau. Foi com paulada — paulada não: pauladas — dada no corpo, nos quartos, na cabeça. Pancadas contundentes no crânio, até que fizeram Orelha sangrar, doer, ganir e uivar cada vez mais baixo.

E fizeram tudo só para se divertir. Fizeram e fizeram e seguiram até que Orelha não pudesse mais resistir, até perder força e não conseguir correr.

Foi gente quem encontrou o Orelha: quase já ido. — lembrei de Baleia, mas no caso dela Fabiano foi misericordioso. Já o Orelha foi ferido por quatro coisas sem nome e malignas.

O cão Orelha nunca teve raiva de ninguém, nem daquela do tipo da suspeita recaída sobre Baleia, para quem Fabiano, na desconfiança, fez um rosário de sabugos de milho queimado e lhe pôs no pescoço.

O Orelha, tal qual Baleia era fiel, manso de coração mesmo quando a vida lhe foi seca.

 A Praia Brava foi, por muito tempo, lugar manso para Orelha, mas parece que toda água salgada daquele lugar já sabia que Orelha iria juntar suas lágrimas ao mar.

Quatro não-gente-não-bicho de peitos ocos, corpos sem almas, coisas secas e sem nome desejaram o desejo mais vil e espancaram a mansidão do Orelha.

Que vidas secas as dos quatro, que sangue ruim o que possuem, que mar tormento o que navegam, que voos tristes fazem, que coisas horríveis pensam, executam…

O Orelha dava esperança àquele lugar, mas os quatro não-gente-não-bicho, que são só ódio, estupidez, violência, maldade, perversão, coisas que não dá para botar nome, apontam desilusão.

O Orelha não mora mais na Praia Brava. Não corre ou brinca na areia, nem busca siri fujão, nem acompanha banhista, nem se põe de barriga para cima só para ganhar uma boa coçada e abanar o rabo em gratidão.

Quero acreditar naquele mundo-céu de Graciliano, onde Baleia foi dormir para acordar num lugar cheio de gordos preás, enquanto vê o Orelha chegar, correndo atrás de muitas bolinhas de tênis para brincar.

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