A Colombo Ainda Guarda o Tempo

Há lugares que não envelhecem.

                Não porque o tempo lhes tenha poupado as paredes, os espelhos ou os lustres, mas porque a memória ali se recusou a partir.

                Naquela noite carioca, ao atravessar as portas da secular Confeitaria Colombo, tive a estranha sensação de não estar entrando apenas numa confeitaria, mas numa dobra do próprio tempo.

                Ao meu lado seguia o jovem Raí, companheiro de viagem, desses que observam o mundo com olhos ainda capazes de se surpreender. E talvez tenha sido justamente isso o mais bonito daquele instante: ver duas gerações caminhando sob os mesmos espelhos belgas, refletindo-se entre os salões dourados da velha Colombo, enquanto o Rio de Janeiro — o antigo e o presente — respirava ao redor de nós.

                A Colombo nasceu em 1894, pelas mãos de imigrantes portugueses, quando o Rio ainda ostentava o título de capital da República. Seus salões atravessaram a Belle Époque brasileira, receberam escritores, políticos, músicos, intelectuais e sonhadores. Por ali passaram nomes como Rui Barbosa, Olavo Bilac, Lima Barreto, Chiquinha Gonzaga e Villa-Lobos, enquanto garçons silenciosos serviam doces e cafés fumegantes, cuja receita parecia conspirar contra a pressa do mundo moderno. 

                A verdade é que o Rio guarda uma capacidade rara: a de transformar pedra, azulejo e madeira em lembrança viva.

                E a Colombo talvez seja um dos últimos templos dessa resistência.

                Os espelhos de cristal vindos de Antuérpia ainda multiplicam imagens como faziam há mais de um século; os frisos em jacarandá continuam sustentando a elegância de um Brasil que sonhava parecer Paris; os vitrais observam silenciosamente turistas, poetas ocasionais e casais distraídos, como se nada tivesse mudado desde os tempos dos bondes e dos chapéus de feltro. 

                E, no entanto, tudo mudou.

                O Rio já não é capital.

                Os velhos cafés desapareceram.

                As conversas longas foram substituídas pela urgência dos celulares.

                Mas certas casas permanecem de pé para lembrar ao homem moderno que a beleza também é patrimônio.

                Ali estávamos nós. Eu, cronista de passos lentos e memórias insistentes. Raí, juventude em trânsito, olhando aquele cenário talvez sem perceber que fazia parte dele.

                Porque viajar não é apenas conhecer lugares. É permitir que os lugares nos conheçam também.

                E penso que, naquele instante congelado pela fotografia, a velha Colombo nos acolheu como acolheu tantos outros ao longo de mais de um século: sem perguntar de onde vínhamos, apenas oferecendo mesa, luz, história e permanência.

                Talvez seja isso que torna o Rio de Janeiro eterno.

                Não apenas suas praias ou montanhas, mas sua capacidade de conservar almas dentro dos edifícios.

                A antiga capital ainda pulsa em certos endereços.

                Ainda conversa baixo nas esquinas do centro histórico.

                Ainda serve café em porcelanas antigas enquanto o passado permanece sentado à mesa ao lado.

                E quando deixamos a Colombo naquela noite, tive a impressão de que não éramos apenas dois viajantes saindo de uma confeitaria.

                Éramos dois personagens discretos atravessando, por alguns minutos, as páginas vivas da história carioca.

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