Crônica de uma investigação que já nasceu arquivada


Ah, a CPMI do INSS — essa epopeia moderna que prometia varrer a sujeira da corrupção e acabou pendurando o pano de chão na janela do Congresso, secando sob o sol do descaso.
Dois meses de barulho. Discursos inflamados. Dedos em riste. E… nada.
Nenhum peixe grande fisgado. Nenhum mistério resolvido.
Só o eco das vozes indignadas e o tilintar dos talheres no restaurante do Senado.
O CIRCO E SEUS PALHAÇOS ENGRAVATADOS. A Polícia Federal bateu à porta de umas tantas entidades suspeitas e o país prendeu a respiração.
“Agora vai!”, diziam os crédulos — esses otimistas que ainda acreditam em CPI com final feliz.
Pois não foi.
O Congresso criou a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, e o resto virou novela:
capítulos longos, tramas confusas, vilões de sempre e coadjuvantes que falam muito e fazem pouco.
A BLINDAGEM DIVINA (OU JUDICIAL). Enquanto isso, o Supremo Tribunal Federal — lá de sua torre de marfim — estendeu o manto sagrado da blindagem institucional aos personagens centrais da trama, preservando os “bandidos de estimação” dos políticos de plantão.
Sigilos rejeitados.
Depoimentos dispensados.
Curiosidades abafadas.
Tudo em nome da “ordem jurídica”.
Frei Chico, o irmão do presidente Lula, virou santo milagreiro: não se toca, não se convoca, não se pergunta.
É a nova liturgia da impunidade, com bênção de toga e incenso processual.
A CRUELDADE EM LETRAS MIÚDAS. As vítimas? Ah, os aposentados.
Gente de mãos trêmulas, visão curta e paciência longa.
Foram enganados, descontados, explorados.
A engrenagem girou seis anos, movida a propina e sustentada por discursos de “justiça social”.
Roubaram até de quem já mal tinha tempo de ser roubado.
E chamaram isso de política pública.
O SAMBA DO GOVERNISMO DOIDO. Enquanto a oposição fala, os parlamentares governistas gargalham e o governo dança, cada qual no seu compasso de conveniência.
Cada bancada toca um ritmo: uns batem palmas, outros desafinam.
O povo — esse espectador de arquibancada — cansado, assiste ao desfile e tenta adivinhar o enredo: o espetáculo é tragédia, farsa ou só mais uma reprise?
A CPMI investiga ou encobre?
O relator fala em “responsabilidade institucional”, o líder da base em “respeito às garantias individuais”.
Mas no fundo, todos querem o mesmo: ganhar tempo — aquele bem precioso que só os culpados sabem gastar.
A MORAL DA HISTÓRIA. O relatório final virá.
Terá capa bonita, letras graves — talvez impressas em dourado — e promessa de “medidas cabíveis”.
Será entregue com pompa, como quem oferece flores em velório.
Porque a CPMI do INSS, com tanto barulho e tão pouco resultado, morreu de causas naturais:
excesso de discurso e falta de vergonha.
E o país segue em rumo preocupante, mas sem pressa.
Afinal, entre a indignação e o esquecimento, sempre cabe mais uma pizza.
E, como todos sabem, em Brasília o forno nunca esfria.