O País das Exceções Cotidianas

(Crônica inspirada no editorial “Um processo absurdo”, do jornal O Estado de S. Paulo, de 14/11/2025)

                Há países que amanhecem autoritários. O Brasil, não. Aqui, o excesso chega de mansinho, como quem pede licença para entrar — e quando vemos, já está sentado no sofá, tirando os sapatos e dizendo que veio para ficar.

                O editorial do Estadão sobre o caso do ex-assessor Eduardo Tagliaferro — aquele que denunciou o ministro Alexandre de Moraes e, por isso mesmo, acabou transformado em réu pelo próprio ministro que denunciara — cai como um desses despertadores que a gente tenta adiar, mas que, insistente, lembra: acorde, isso não é normal.

                E não é mesmo.

                A crônica institucional brasileira anda cheia de personagens improváveis. Há juízes que acumulam papéis — denunciam, investigam, acusam, julgam — como se a Constituição fosse apenas um roteiro opcional. Há órgãos que, diante do dever de resguardar garantias, transformam exceções em método com a naturalidade de quem serve café.

                Nada disso chega de uma vez. Primeiro, é uma decisão “excepcional”. Depois, outra “excepcionalíssima”. Mais adiante, uma “urgente”, uma “necessária”, uma “preventiva” — e quando percebemos, a exceção virou hábito, e o hábito virou regra.

                O caso Tagliaferro poderia ser anedota, não fosse trágico. Na história contada pelo Estadão, um denunciante vira acusado; o sigilo, que antes protegia, passa a ser violado; e aquilo que deveria ser um rito sagrado — o devido processo legal — transforma-se numa formalidade dispensável. Tudo isso embalado pelo discurso, sempre nobre, sempre altivo, de que se faz assim “para salvar a democracia”.

Curiosa democracia essa, que precisa ser salva por atos que a ferem.

                A toga, que um dia simbolizou contenção, hoje às vezes parece capa de super-herói. E super-heróis, todos sabemos, têm a tentação do “eu resolvo sozinho”. O problema é que, na vida real, justiça não se faz com superpoderes — mas com limites. E limite, em terra de exceções, é artigo de luxo.

                O mais inquietante é perceber que muita gente já não se assusta. A indignação, domesticada, aprendeu a esperar o próximo capítulo. O extraordinário virou cotidiano — e o cotidiano, perigo silencioso.

                A crônica, aqui, não traz respostas. Apenas um lembrete incômodo: quando a exceção vira método, quem deveria proteger o cidadão pode acabar protegendo apenas a si mesmo.

                E nenhum país sobrevive bem quando o poder, travestido de virtude, passa a se olhar no espelho com excessiva admiração.

                A democracia, essa senhora frágil e resistente, precisa menos de salvadores e mais de guardiães das regras. Porque quando a regra se curva, o cidadão se dobra — e um país inteiro se ajoelha.

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