Uma crônica sobre o peso das palavras e a leveza que esquecemos de dar a elas


Descobri, depois de muitos anos observando gente empurrar carrinho de supermercado como quem empurra a própria vida — pesadamente e sem lista — que a tal felicidade talvez não esteja numa praia de Ubatuba e nem escondida atrás de um brunch com abacate. Desconfio que ela se esconde nas palavras simples que a gente gasta ao acordar. Há quem desperdice a manhã inteira com adjetivos amargos; outros, com sorte, começam o dia com um “bom dia” meio torto, mas sincero.
Somos criaturas que falam — e às vezes falamos demais. A conversa corriqueira, que parece coisa à toa, move engrenagens invisíveis. A ciência anda tentando explicar isso com gráficos e nomes em inglês; eu prefiro ver como pura feitiçaria doméstica, igual àquele café que acorda até quem já acordou.
O mundo seria mais respirável se falássemos um pouco sobre o que dá certo. Mas não: elogio anda raro como vaga de garagem em noite de chuva. Crítica, por outro lado, brota como boleto digital — silencioso, inevitável e sempre no pior dia do mês.
É curioso como passamos a vida afinando o ouvido para o desastre. A televisão virou um estacionamento de tragédias, e os comentaristas parecem moer esperanças no liquidificador antes mesmo do primeiro gole de café. Soluções não dão ibope; o que rende são os problemas, multiplicados em câmera lenta.
Aprendemos isso desde pequenos. A educação sentimental de muitos de nós veio servida no prato do “não”: não corre, não sobe, não grita, não pega, não tenta, não repara que a vida está aí. A criança mal descobre que tem pés e já escuta que o mundo é um conjunto de barreiras com rodapé.
Enquanto isso, o “sim” esteve escondido atrás de portas que ninguém teve a delicadeza de abrir. Quase não ouvimos: “vai lá”, “experimenta”, “me conta”, “fala, quero te escutar”. É como se a infância tivesse vindo com manual de instruções, mas faltasse a página sobre liberdade.
A boa notícia — sim, eu a encontrei perdida como botão de camisa — é que alguns andam revisando esse manual. A psicologia positiva, que tem nome de palestra motivacional mas já ganhou diploma acadêmico, jura que trocar meia dúzia de palavras pode mudar o humor da alma. Uma palavra que levanta outra pode virar hábito — e hábito, meu caro, é coisa teimosa: transforma o dia de quem fala e de quem escuta.
Fico então com a pulga atrás da orelha: será que nossa fala encolhe ou amplia o mundo ao redor? Somos artesãos de possibilidades ou fiscais de defeitos alheios? Às vezes percebo que uma frase mal dada faz a pessoa procurar abrigo atrás do sofá — como gato assustado.
Mas o contrário também acontece: quando aprendemos a falar um pouco melhor — para fora e para dentro — acontece um fenômeno bonito, desses raros: começamos a gostar de nós mesmos na mesma medida que os outros começam a gostar também. Não é milagre, é só afeto com dicção.
Ninguém resiste a um elogio sincero sobre a tapioca do colega, mesmo que venha com a vírgula no lugar errado. A vida é assim: cheia de defeitos, mas ainda assim vale um sorriso.
No fim das contas, cuidar das palavras é como regar samambaia — não exige muito, mas exige constância. Dá trabalho acreditar menos no “não vai dar certo” e mais no “vamos ver no que dá”. É exercício diário, como academia — só que sem mensalidade e sem espelho julgando o abdômen alheio.
Talvez a revolução possível seja miúda: um “você consegue”, um “tô aqui”, um “que bom te ouvir”. Frases baratas no mercado e caras no coração. Enquanto esperamos grandes transformações, quem sabe uma pequena conversa já não melhora o bairro?
Fica meu convite: experimente uma semana com palavras mais leves. Se o mundo não melhorar, ao menos a alma perde dois quilos invisíveis. E quem sabe, nesse processo modesto, a felicidade descubra que você existe e esteja por perto — tomando café requentado numa padaria qualquer.
Afinal, entre cadeiras de plástico e dias iguais, todo mundo só quer isto: sentir que vale a pena falar, ouvir e continuar vivendo — de preferência com uma palavra boa guardada no bolso, para usar na urgência.
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