Uma crônica sobre o valor de quem está perto — e o estranho hábito de duvidar dos nossos próprios santos.


Jesus voltou a Nazaré com o coração cheio de luz e de lembranças. Quis fazer o bem aos seus, espalhar fé entre as mesmas paredes onde crescera. Mas o povo, acostumado com o menino que brincava nas ruas e ajudava o pai na carpintaria, olhou-o com desdém: “Esse aí? Filho de José? Ora, milagre é coisa que vem de fora.”
E nada aconteceu. Porque milagre, para existir, precisa de fé — e fé, às vezes, é o que mais falta dentro de casa. Aliás, “nenhum profeta é bem recebido em sua terra” (Evangelho segundo São Lucas, 4:24).
Desde então, Nazaré virou metáfora de um costume bem humano: o de achar que o que vem de longe tem mais brilho. Um sotaque diferente encanta mais do que a sabedoria da esquina. Um conselho de fora soa mais técnico que o afeto sincero do vizinho. Somos assim: desconfiamos do que é próximo, como se a intimidade diminuísse o valor das pessoas.
Há maridos que só descobrem a grandeza da esposa quando outro a elogia; chefes que pagam caro para um consultor repetir o que o funcionário já vinha dizendo há meses — só que com crachá importado e um PowerPoint bilíngue; pais que só percebem o talento dos filhos quando alguém de fora os aplaude. Nazaré, no fundo, continua viva — só trocou o deserto por asfalto e o manto por terno e gravata.
Mas os verdadeiros milagres ainda acontecem aqui mesmo, nas pequenas coisas: na paciência de quem nos espera sem reclamar, no amigo que liga só para saber se está tudo bem, no filho que insiste em nos ensinar o que ainda fingimos não entender.
Talvez o segredo esteja em reaprender a ver — olhar o outro com o mesmo encantamento que temos pelo que não conhecemos.
Porque, se Jesus tivesse sido ouvido em Nazaré, talvez a história fosse outra. Se Nazaré tivesse acreditado em Jesus, talvez tivesse virado capital mundial dos milagres. Mas preferiu o ceticismo, e a história seguiu sem ela.
Nós, modernos nazarenos, ainda temos tempo de rever o roteiro. Basta abrir os olhos e perceber que o “santo da casa” continua fazendo milagres — só precisamos parar de exigir currículo internacional e começar a aplaudir o talento local.
E se nós aprendermos a ouvir os nossos “santos de casa”, quem sabe os milagres voltem a acontecer — no quintal, na sala, na empresa, no coração.
Os milagres não se anunciam em outdoors, nem viajam de avião. Eles crescem em silêncio — entre o café coado por quem nos ama, a palavra amiga dita sem pretensão, o gesto pequeno que salva um dia inteiro.
Talvez o maior milagre seja esse: reconhecer o divino que mora tão perto, e ainda assim nos surpreende.