

Foi o fotógrafo Rogério Reis, em 1983, quem registrou a imagem de Carlos Drummond de Andrade, sentado num dos bancos de Copacabana — Princesinha do Mar —, e que pelas mãos do escultor Leo Santana se tornaria um dos mais sensíveis pontos turísticos do Rio de Janeiro.
De costas para o mar, o mineiro de Itabira foi eternizado em postura de prosa, sempre pronto a ouvir e a falar com quem ali se dispuser ao bom diálogo.
Confesso que eu nunca parei por ali para prosear com Drummond, mas se o pudesse fazer, hoje, lhe perguntaria sobre a política e as discussões sobre liberdade, que andam me cansando um pouco. Eu talvez ouvisse dele, em tom crítico-melancólico, que a “democracia é a forma de governo em que o povo imagina estar no poder.” E eu concordaria, certamente.
Drummond sempre soube capturar a essência das contradições humanas, e não seria diferente em nossa conversa. Ele me diria que “a ignorância, a cobiça e a má-fé também elegem seus representantes políticos.” E novamente eu concordaria, afinal estão todos lá, e em maioria agora.”
O abuso de poder, tão presente na história do país, se manifesta de diversas formas, seja na tentativa de silenciar opositores ou na manipulação das leis para proteger interesses próprios, tão impróprios.
“Uma eleição é feita para corrigir o erro da eleição anterior, mesmo que o agrave.” — A completar, Drummond me diria que “o voto, arma do cidadão,
dispara contra ele.” E como dispara, eu diria… No fim das contas, somos todos responsáveis pelo futuro que desejamos construir.
— É frequente roubarem-me os óculos. Mas por que os óculos? Por serem mais fáceis de serem arrancados e leves para serem levados e simples de serem derretidos? Não creio… Talvez os levem por representarem uma visão mais apurada, sem embaçamentos ou embaralhamentos. Enxergar as coisas pode ser incômodo. Nem todo mundo quer ver. Mais fácil exigir de alguém, atribuir a outrem o que deveria ser nosso dever e se der tudo errado, eximir-se de culpa. — poderia me dizer o poeta.
Mas não creio que o dissesse sem uma boa reflexão de quem foi questionado por ter auxiliado e se beneficiado com o golpe de 1930, que alguns ainda chamam de Revolução de 30.
Foi pela pena de Drummond, então redator-chefe do Diário de Minas — órgão conservador —, que o escritor foi escolhido em 1929, para dirigir a campanha da Aliança Liberal no Minas Gerais.
Havia em Drummond um posicionamento ambíguo entre sua escrita poética modernista e seus discursos conservadores.
Então, em resposta ao poeta, eu diria que seus óculos estariam lhe sendo roubados por quem não confiasse em sua visão ou dela duvidasse, mas que ele não se preocupasse com isso, porque “toda história é remorso.”