Um abraço que não dei

Há amizades que não precisam de presença física para se afirmarem. Elas se sustentam no tempo, na memória compartilhada e num fio invisível de afeto que não se rompe, mesmo quando o corpo falha em atender aos comandos da alma.

                Conheci Gil Vicentequando ele era gerente do Banespa. Bastou pouco para perceber que estava diante de um homem raro: culto sem ostentação, afável sem afetação, gentil por natureza, desses cavalheiros que não precisam anunciar o que são, porque o caráter os precede. A amizade veio com os anos, como vêm as coisas sólidas — sem pressa, sem ruído, mas com profundidade.

                Na semana passada, Fernando, meu editor no Jornal Terceira Visão, ligou-me com um convite especial: um café, simples e simbólico, para celebrar os 90 anos de vida do meu estimado amigo Gil Vicente Bastos Duarte. Disse que iria. E disse com sinceridade. A cabeça, ainda lúcida e bem-intencionada, ordenou:

                — Vilela, vá cumprimentar o seu amigo.

                Mas o corpo, esse velho teimoso, resolveu desobedecer. Descobri, meio surpreso, meio resignado, que me tornei um ermitão moderno. Saio pouco. Quase nada. Nem mesmo profissionalmente: o Fórum virou tela, o processo virou clique, o mundo encolheu para dentro de casa. Vivemos tempos curiosos. Muitas amizades, hoje, são cultivadas à distância, pelas mensagens trocadas no WhatsApp, pelos comentários no Facebook, pelos áudios longos que chegam fora de hora e são ouvidos com atenção, como quem escuta um amigo sentado à mesa da cozinha. São laços que se mantêm vivos em telas iluminadas, mas que carregam afeto real, cuidado verdadeiro e presença possível. Às vezes, o “como você está?” digitado vale mais do que um encontro apressado. Muitas vezes, o coração chega antes do corpo — e permanece. E confesso, com certa vergonha tardia, que nem sequer o cumprimentei digitalmente. Talvez ainda enrolado em peles imaginárias, feito um urso da caverna com wi-fi, esqueci-me da urbanidade elementar que até os ermitões contemporâneos deveriam praticar. E, naquele dia, não fui.

                Fiquei com o coração apertado. Com aquele incômodo que só a ausência injustificada provoca. Por isso escrevo esta crônica: um pedido de desculpas meio sem jeito, mas inteiro de sentimento.

                Confio — e sei — que Gil Vicente compreenderá. Ele sempre teve um coração grande demais para caber em mágoas pequenas.

                Gil Vicente completou 90 anos. Noventa. Não apenas de idade, mas de vida bem vivida, dessas que se constroem no trabalho, mas se sustentam, sobretudo, no amor. Natural de Itapetininga, foi por muitos anos o companheiro dedicado de Irene Tristão Bastos Duarte, com quem dividiu a vida, os sonhos, as dificuldades e os silêncios bons do cotidiano. A ausência dela, hoje, não apaga a presença que ficou — dessas que permanecem na memória, nos gestos repetidos e no afeto que não se aposenta. Pai de Telma, Gilson e Márcia, sempre fez da família o seu porto seguro, referência firme e discreta, dessas que orientam mais pelo exemplo do que pelas palavras.

                Gerente do Banespa em Itapeva, São Paulo, Pedreira, Jaguariúna e Valinhos, deixou marcas que não se apagam com o tempo, porque não foram apenas profissionais, mas humanas.

                Foi dele a ideia do Posto de Atendimento Bancário na Prefeitura de Valinhos. Era querido e respeitado pelos agricultores do Macuco, a ponto de ir de fusca até as chácaras, transportar valores no próprio carro, confiado à confiança mútua. Num tempo em que a palavra valia mais que assinatura, Gil Vicente era sinônimo de segurança.

                Órfão cedo, criado pela avó Haideé — professora de piano de Zequinha de Abreu e tia do governador Laudo Natel —, cresceu cercado de exemplos de trabalho, cultura e dignidade. Teve três irmãos, todos gerentes do Banespa, como se o ofício fosse herança de honra.

                Gil Vicente é desses homens que atravessam décadas sem fazer alarde, mas deixando rastros de humanidade por onde passam. A amizade que nos une não se mede por cafés tomados ou encontros perdidos, mas pelo respeito silencioso que permanece.

                Meu amigo Gil Vicente, receba estas linhas como um abraço tardio, porém sincero. Que elas cheguem onde meus passos não chegaram. E que saibas: a amizade verdadeira entende o corpo cansado, desde que o coração continue presente.

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