A era do dedo duro digital

Então chegamos aqui: à fase em que a humanidade, tão conectada, parece cada vez menos humana. As redes sociais, que deveriam aproximar, viraram arenas de batalha e vitrines de frustrações. A pandemia — esse divisor de águas que escancarou medos e solidões — também abriu espaço para um fenômeno perigoso: o encorajamento vazio. Atrás da tela, todo mundo virou valente. “A gente não quer só comida”, cantaram os Titãs, mas parece que muitos procuraram saída demais e se perderam de si mesmos.

O distanciamento social acabou, mas o emocional ficou. As pessoas dizem o que querem, como querem, para quem não pediu. Criam factoides, espalham maldades como quem solta confete. Formam pequenos tribunais virtuais para “detonar” alguém — por raiva, inveja ou pura carência. Clarice Lispector já alertava: “O que as pessoas dizem de você não diz nada sobre você. Diz sobre elas.” As redes são esse espelho cruel onde cada dedo apontado revela uma ferida.

É triste ver brigas políticas — por gente suja e distante — destruindo amizades e dividindo famílias. Grupos de WhatsApp se tornaram zonas de guerra onde cada frase vira munição. Falta afeto. O emoji substituiu o abraço. O áudio substituiu o olhar. O textão tomou o lugar da conversa verdadeira.

Mas antes de culpar “o mundo”, vale o soco no estômago: quem constrói esse mundo somos nós. Cada ironia, cada mentira, cada ataque gratuito deixa marca. Renato Russo lembrou: “Compaixão é fortaleza.” Hoje, falta compaixão e sobra coragem covarde — aquela que só existe quando não há olhos nos olhos, apenas telas.

Talvez seja hora de reaprender o básico: conversar, ouvir, respeitar. Desligar o celular, mandar uma mensagem sincera, pensar antes de ferir. Porque toda essa gritaria online só revela uma humanidade exausta e vazia. E, se continuarmos assim, talvez não sobrem nem redes — nem relações — para remendar.

E Belchior resume esta era de dedos nervosos e corações frios: “O passado é uma roupa que não nos serve mais.”

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