

Hoje, 18 de junho, dia em que eu escrevo este artigo, completam-se dezesseis anos da morte de José Saramago, único escritor de língua portuguesa a conquistar um Nobel de Literatura — fato que considero injusto, pois há tantos outros que também o mereceram ou merecem: Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Milton Hatoum, Adélia Prado.
Em “As Intermitências da Morte”, de 2005, a frase inicial diz: “No dia seguinte ninguém morreu.” E assim surgia o caos diante da eternidade da vida.
Desobrigar as escolas portuguesas a terem as obras de Saramago como leitura curricular é matá-lo pela segunda vez.
Só posso pensar que, por algum motivo que me escapa — ou que pode ser muito evidente —, a eternidade de Saramago gera incômodo, a ponto de desejarem sepultar também sua obra.
Em outro trecho de “As Intermitências da Morte”, Saramago aponta: “A propósito, não resistiremos a recordar que a morte, por si mesma, sozinha, sem qualquer ajuda externa, sempre matou muito menos que o homem.”
São homens a quererem matar duplamente Saramago.
Quem o saberá, sem ter lido seus livros? Quem poderá formar opinião sobre ele, a favor ou contra, se não o conhecer?
Por óbvio, há uma intenção maior por trás da desobrigação da leitura de Saramago pelos estudantes portugueses; ou não haveria o desejo de querer que não o leiam, que não o conheçam, que o esqueçam como um morto qualquer. Ideologia?
Ocorre que uma segunda morte, como tal desejam alguns, é mais difícil de se proceder. É preciso que outros a queiram também e que muitos outros não se oponham, aceitem e se resignem como consoladas viúvas que não tornarão a lembrar seus mortos e que negarão tê-los, talvez, conhecido.
A segunda morte, portanto, exigirá a cumplicidade dolosa ou culposa de muitos.
É possível, ainda, que a Morte — a mitológica — queira lavar as mãos deste caso e negue ter participado, em segundo ato.
Acredito firmemente que a Morte possa, inclusive, opor-se a esta nova morte, a qual alguns desejam que ocorra.
A Morte, que tão bem o conhece, dirá que não disse palavra alguma sobre matar a obra do senhor Saramago. E, por conhecê-lo tão bem em vida e saber de seus escritos, talvez seja contrária à morte de sua obra.
Então, sem a Morte para dividir a culpa, aqueles que, com ou sem dolo, tiverem participação no assassinato terão como pena o próprio decesso moral.
Deixo aqui registrado, desde já — e desde antes —, que jamais apoiarei qualquer tentativa de segunda morte de Saramago.
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