A culpa deve ser do sol

Olá, indignados legentes!

Foi Darcy Ribeiro quem disse: “Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca.”

Foto:  Tomaz Silva/Agência Brasil

Papo reto: hoje eu escrevo aos indignados, que não se calam diante da barbárie; aos que não aceitam passivamente o horror da chacina havida no dia 28 deste mês, na Cidade Maravilhosa, a mando do governador fluminense. Nem no Carandiru se executou tanta gente.

Eu cresci numa vila da periferia de Campinas e sou filho de um ex-policial. Enquanto meu pai rezava para nunca precisar fazer uso de seu revólver, outros não viam a hora de haver um confronto para mirar na cabecinha.

Indignar-se pelo que houve no Rio não é defender bandido, que, aliás, não estão apenas nas favelas, mas na Faria Lima, nas polícias, nas inúmeras esferas do poder, por todos os cantos. A indignação, neste caso, é o mínimo que se espera de nós diante dos violentos assassinatos cometidos durante a megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha. Eu nem precisava dizer que não existe pena de morte do Brasil, que matar é crime — homicídio —, não importa quem o cometa, mas é sempre bom relembrar.

Indignar-se frente ao ocorrido no Rio é também não se resignar diante das desigualdades sociais, raiz principal dos conflitos.

Em 1982, durante uma conferência, Darcy Ribeiro falou: “Se os governantes não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”, mas ainda estamos muito distantes de alcançar o nível de educação a que ele se referia.

Em “O Sol na cabeça”, 2018, do escritor Geovani Martins — Prêmio Rio Literatura e finalista do Prêmio Jabuti — nascido em Bangu, que morou na Rocinha e no Vidigal, escreveu em “Espiral”, um dos contos do livro:

“É foda sair do beco, dividindo com canos e mais canos o espaço da escada, atravessar as valas abertas, encarar os olhares dos ratos, desviar a cabeça dos fios de energia elétrica, ver seus amigos de infância portando armas de guerra, pra depois de quinze minutos estar de frente pra um condomínio, com plantas ornamentais enfeitando o caminho das grades, e então assistir adolescentes fazendo aulas particulares de tênis. É tudo muito próximo e muito distante. E, quanto mais crescemos, maiores se tornam os muros.”

Em “Subúrbio”, Chico Buarque escreveu: “Lá não tem moças douradas / Expostas, andam nus / Pelas quebradas teus exus / Não tem turistas / Não sai foto nas revistas — até sai, mas são de corpos mortos — / Lá tem Jesus / E está de costas…” — ao se referir ao Cristo Redentor, que está de frente para a Zona Sul e de costas para a Zona Norte. A letra de Chico é de 2006, e como disse Geovani Martins, “maiores se tornam os muros”, a desigualdade só cresce a cada dia.

Darcy Ribeiro estava certo em 1982. Faltou construir mais escolas; vinte anos depois, os presídios já estavam lotados e seguiram sendo entupidos de gente. Hoje, não apenas no Rio, mas principalmente lá, o governo estadual decidiu que matar é a solução.

Lembrei-me de outra canção do Chico: “Caravanas”.

“Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria / Filha do medo, a raiva é mãe da covardia / Ou doido sou eu que escuto vozes / Não há gente tão insana… / Não há, não há / Sol, a culpa deve ser do sol / Que bate na moleira, o sol / Que estoura as veias, o suor / Que embaça os olhos e a razão.”

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