Vida sem tela

Foto: Associação de Preservação
Histórica de Valinhos

Houve um tempo — e não faz tanto assim — em que a vida não cabia numa tela. Cabia nas mãos dadas, nos abraços demorados e nos olhares que diziam tudo, sem precisar de sinal ou bateria.

Era um tempo em que o mundo acontecia ao vivo.

A infância e a juventude deslizavam pelas ruas de Valinhos como quem não tinha pressa. E não tinham mesmo. Havia o cinema — o Cine da Paz — onde os sonhos eram projetados em luz tremida, e depois o ritual sagrado de tomar sorvete no bar do Amadeu Barchesi, ali em frente, como quem prolonga a magia do filme. Havia os gibis, as peladas de rua, os mergulhos nos tanques da Fonte Sônia, e até o passeio de trem, que não levava apenas a lugares, mas a sensações que hoje mal sabemos nomear.

Antes de tudo isso, porém, havia o grupo escolar — e ali se aprendia “pra valer”, como se dizia. Aprendia-se o mundo, mas também o respeito por ele.

Depois, o tempo — esse artesão silencioso — nos fez crescer. Vieram os namoros, os noivados, os casamentos. Vieram os filhos. E, sem perceber, fomos cumprindo nossa missão de gente: viver, amar, construir. Tudo isso sem precisar estar “online”. Estávamos, na verdade, presentes.

E como éramos presentes.

As “vendas” da cidade eram mais que comércio — eram extensão da confiança. As cadernetas guardavam mais do que dívidas: guardavam a palavra empenhada. Comprava-se fiado, pagava-se no fim do mês, quando o salário vinha, dentro do envelope, das mãos da Gessy Lever, da Rigesa, da Clark, do Cartonifício Valinhos. E ninguém faltava com o compromisso. Não era preciso contrato — bastava o caráter.

As esquinas tinham nome, tinham dono, tinham história: Maróstica, Stefanini, Pazzinato, os irmãos Pozuto, Miguel Abib Kelesli, Zacharias, Ferraro, Brandini… cada balcão era um ponto de encontro, cada prateleira, uma lembrança. E entre todas, havia também o Bazar Santa Terezinha — do meu avô Amin, depois da minha mãe Olga — onde o comércio se misturava com afeto e tradição.

Valinhos era quase uma família inteira.

Hoje, a cidade cresceu, mudou, multiplicou-se. Vieram supermercados, cartões, cheques, Pix. Veio a pressa. Veio o anonimato. Já não se conhece todo mundo — e, talvez, nem a si mesmo, às vezes.

E veio também essa pequena tela — essa presença constante, silenciosa e invasiva — que nos conecta com o mundo, mas, curiosamente, nos afasta dele. A vida agora passa diante dos olhos, mas nem sempre dentro deles. Tudo está pronto: jogos, filmes, músicas, opiniões, excessos. Até aquilo que antes era velado — hoje se mostra sem pudor.

E o tempo? Ah, o tempo corre como nunca.

A garotada cresce olhando para baixo — não mais para o horizonte. E nós, adultos, muitas vezes fazemos o mesmo, sem perceber que a vida natural, simples e verdadeira, escorre pelos dedos como água que não volta.

Mas, ainda assim, há algo que permanece.

As lembranças.

Elas resistem.

Elas nos chamam de volta.

E quando alguém menciona a antiga loja da minha mãe, ou quando alguém recorda aquela subida da Rua 7 de Setembro, algo dentro de mim desperta — como se o passado sussurrasse: “eu ainda estou aqui.”

E parece mesmo que foi ontem.

Mas não foi.

Foi vida.

E que vida.

Agora, restam as saudades — dessas que não pesam, mas iluminam. Saudade de gente boa, de gente simples, de gente que temia a Deus e honrava a palavra. Gente que viveu, lutou, criou seus filhos… e partiu.

Partiu, mas não se foi.

Porque permanece em nós.

Na memória.

No exemplo.

Na fé.

E assim, entre o que fomos e o que ainda somos, seguimos.

Talvez mais conectados.

Mas, quem sabe, menos presentes.

E fica a pergunta, lançada ao vento, como uma folha antiga de caderneta: — até quando?

Só Deus sabe.

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