Seu Hermínio ainda bate à porta

Havia um som que despertava Valinhos antes mesmo do sol cumprir seu dever. Não era o canto do galo, nem o apito distante do trem — era mais simples, mais humano: o bater ritmado nas portas, quase um código silencioso entre quem chegava e quem esperava.

                Era o senhor Hermínio Gobbato.

                Pontual como um relógio antigo — daqueles que nunca falham, apenas envelhecem com dignidade — lá vinha ele, trazendo consigo não apenas o leite fresco, mas uma presença que hoje faz falta. Não era entrega; era visita breve, quase um cumprimento sem palavras, selado pelo toque firme na madeira e pela garrafa deixada com cuidado.

                As casas, ainda sonolentas, pareciam reconhecer aquele ritual. Portas que rangiam, cortinas que se moviam discretamente, e o cheiro do café começando a se espalhar — tudo conspirava para aquele instante simples, mas cheio de significado.

                O leite vinha em garrafas de vidro, com aquela película de nata que muitos disputavam como se fosse um prêmio. E junto com ele vinha também a confiança: ninguém precisava conferir, ninguém desconfiava. O mundo, naquele pedaço de manhã, era mais inteiro.

                Seu Hermínio não apenas passava — ele fazia parte. Sabia das famílias, dos hábitos, das ausências. Se a garrafa permanecesse intocada, logo alguém perguntaria: “Está tudo bem por aí?” Era um tempo em que até o silêncio tinha companhia.

                Hoje, substituímos o toque na porta por notificações silenciosas. O leite chega, quando chega, embalado em praticidade e anonimato. Ganhamos tempo, dizem. Mas talvez tenhamos perdido aquilo que não se mede: o encontro breve, o gesto repetido com alma, a certeza de que alguém passaria — não só para entregar, mas para existir junto.

                E assim, entre lembranças e saudades, seu Hermínio segue vivo — não mais pelas ruas de Valinhos, mas pelas veredas da memória, onde ainda se escuta, bem cedo, aquele toque firme na porta… como quem diz: “Bom dia, a vida continua.”

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