

Há poucos dias eu assisti o trecho de uma entrevista dada pelo psicanalista, escritor e dramaturgo italiano, radicado no Brasil, Contardo Calligaris, falecido em 2021, onde ele disse: “… Nós somos uma civilização inteira construída há 3.000 anos, em cima do ódio pelas mulheres… os textos inaugurais de nossa cultura, tanto do lado judeu-cristão, quanto do lado grego, colocam a mulher como a representante do mal. Isso está no coração da nossa cultura. A mulher é o lugar onde todos; homens e mulheres, aliás, projetamos o mal que nos persegue: uma civilização construída inteiramente em cima do mito de ‘Eva’; como, na verdade, aquela com quem o demônio fala, e para quem o demônio fala. Essa representação está no coração da nossa cultura. Então a misoginia não é um acidente: a misoginia está no coração de quem nós somos.”
Diante da irretocável fala de Calligaris, não me sinto apto a me declarar um feminista: sou incapaz para tanto.
Tento, todos os dias, ser antimachista, antipatriarcal; e falho terrivelmente diante das profundíssimas raízes machistas e patriarcais de nossa cultura, como bem explicou Calligaris.
Angela Davis, filósofa e ativista estadunidense, se me ouvisse, diria que eu não devo pensar assim, pois segundo ela, o feminismo precisa ser um movimento de intersecção entre raça, classe e gênero. Ou todos nós assumimos isso, ou será muito difícil alcançar um mundo mais justo, onde haja mais igualdade social, racial e de gênero.
Ocorre que numa civilização forjada sobre o ódio pelas mulheres, como apontou Calligaris, homens inseguros, de frágil masculinidade, atacam com toda a violência possível o signo eleito há mais de três mil anos, como o mal: a mulher.
Ou nos reinventamos por completo, ou seguiremos testemunhando cenas brutais, de total violência contra as mulheres, como a recente atrocidade cometida pelo “homem”; Douglas Alves da Silva, responsável pela mutilação da jovem Tainara Souza Santos, que teve as pernas amputadas após ser atropelada e arrastada por cerca de 1 quilômetro até a Marginal Tietê, no último dia 30 de novembro.
Casos como o de Tainara estão acontecendo agora, enquanto você lê este artigo.
Nossa dita “civilização” precisa ser, no mínimo, recivilizada sobre fundamentos igualitários de gênero, não patriarcais, não machistas, não racistas, sob pena de sucumbirmos afogados por nossas formas de segregação e desigualdades.
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