Jonatas Caxambu denuncia o racismo estrutural e o apagamento da história negra em Valinhos

“Não dá mais para silenciar a presença negra em Valinhos”




Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial, o Jornal Terceira Visão ouviu o ativista da causa, que fez declarações fortes e necessárias

Jonatas Caxambu tem 37 anos, é técnico de manutenção, casado com Priscila Caxambu e pai de dois meninos, Calebe (5) e João Victor (9). Ativista pela igualdade racial, ele é uma das principais vozes do movimento negro de Valinhos e cofundador da Marcha Zumbi dos Palmares e Dandara, evento que rompeu o silêncio histórico da cidade sobre a questão racial. Nessa entrevista exclusiva ao Jornal Terceira Visão, Jonatas fala sobre sua trajetória, as dores da discriminação e o papel transformador da resistência coletiva.

O que representa para você o Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial, especialmente no contexto da luta antirracista?

Esse dia não é só uma data no calendário. É um lembrete doloroso e urgente de que o racismo segue vivo. Em Valinhos, infelizmente, ele é ignorado pelo poder público. A luta antirracista precisa de ações concretas, não de discursos vazios. A data serve para escancarar feridas que nunca foram curadas e para nos lembrar que não somos figurantes nessa sociedade – somos protagonistas que seguem sendo invisibilizados.

Você já enfrentou discriminação racial? Como isso afetou sua trajetória?

Infelizmente, incontáveis vezes. Desde a infância, com piadinhas na escola, até a vida adulta, quando sou suspeito ao entrar em uma loja. Já fui preterido em empregos por estereótipos, tive minha fala deslegitimada por causa da minha cor. Essas experiências moldaram minha luta e reforçaram minha convicção de que é preciso combater o racismo onde ele estiver – nas palavras, nas atitudes e nas instituições.

Quais formas de racismo você percebe com mais frequência no cotidiano?

O racismo estrutural está em tudo. Desde expressões naturalizadas até dados do IBGE que mostram como jovens negros têm menos escolaridade, salários mais baixos e estão mais vulneráveis socialmente. Isso tudo é fruto de uma herança cruel da escravidão, que ainda não foi reparada. Precisamos romper com essa “normalidade” injusta.

Como surgiu a Marcha Zumbi dos Palmares e Dandara em Valinhos?

A marcha nasceu da indignação. Eu e o professor Josué Roupinha percebemos que Valinhos apagava sua história negra e ignorava nossas pautas. Com apoio de mães, jovens e lideranças locais, organizamos um grito coletivo. A marcha é um ato de resistência, de presença, de enfrentamento ao silêncio institucional.

Qual é a importância de resgatar figuras como Zumbi e Dandara?

Zumbi e Dandara são mais que nomes históricos – são símbolos de resistência. Quando o Brasil tenta apagar a história negra ou suavizar a escravidão, resgatar esses nomes é um ato político. Em Valinhos, isso significa devolver dignidade e protagonismo ao nosso povo. É mostrar que nossos ancestrais lutaram – e nós continuamos lutando.

Quais os principais desafios atuais no combate à discriminação racial?

O primeiro é o racismo institucional, seguido da omissão dos poderes Legislativo e Executivo. Depois, a naturalização do silenciamento, como se o racismo fosse algo irrelevante. E, por fim, a falta de educação histórica – sem ela, não há consciência nem mudança.

A história oficial de Valinhos valoriza a presença negra?

Definitivamente, não. É uma história branca, higienizada. Falam dos imigrantes italianos, mas esquecem os negros escravizados que ergueram a cidade. Isso é racismo histórico, um apagamento deliberado. Valinhos tem uma dívida imensa com a população negra que só será paga com verdade, reconhecimento e justiça.

E quanto à preservação da memória negra na cidade? Existem homenagens suficientes?

Não. As ruas homenageiam figuras da elite branca, enquanto nossos heróis são esquecidos. Precisamos exaltar nomes como Dr. Oswaldo Reiner, Professora Laís Helena, o ativista Josué Roupinha e, em memória, a professora Solange Elizabeth da Silva. São pessoas negras que fizeram e fazem história, mas permanecem fora dos holofotes por escolha política.

Para encerrar, qual sua mensagem neste 3 de julho?

Acordem. O racismo existe em Valinhos, sim. Para os negros: não se calem. Resistam. A Marcha Zumbi dos Palmares e Dandara está aqui para dar voz e visibilidade. Para os brancos: não basta não ser racista. É preciso ser antirracista. A luta é de todos nós, e o silêncio de uns custa a vida de outros.

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