

Olá, legentes!
Estamos a zero dias sem guerras ou conflitos armados no mundo desde o início da contagem — o surgimento da humanidade.
Nossa história é um eterno apocalipse.
Lembrei-me de László Krasznahorkai — Nobel de Literatura em 2025 —, em sua obra publicada no Brasil, “Sátántangó” (O Tango de Satã).
“…Contemplou tristemente o céu ameaçador, os restos queimados do verão cheio de gafanhotos, e de súbito viu passar pelo mesmo ramo de acácia a primavera, o verão, o outono e o inverno, como se sentisse de leve que na esfera imóvel da eternidade a totalidade do tempo gracejasse, enganando, ao superar os obstáculos da confusão reinante, a planura demoníaca, e, uma vez criadas as alturas, ele falseasse, de modo que parecesse inevitável, a loucura… e se viu no crucifixo sobre o berço e o caixão debatendo‑se com dificuldade, para, por fim — sem braçadeiras nem condecorações —, se entregar, desnudo, a uma condenação explosiva, seca, nas mãos dos lavadores de mortos, para o riso dos coureiros incansáveis, em que ele depois se veria obrigado a reconhecer sem piedade a medida das coisas humanas, sem que uma única trilha o conduzisse de volta, porque nessa hora ele saberia que se metera com carteadores desonestos numa partida jogada desde bem antes, em cujo final eles lhe roubariam a última arma, a esperança de que voltaria a encontrar em algum momento o caminho de casa.”
Há textos que não contam uma história, mas produzem um estado. Este é um deles. Desde a primeira imagem, o leitor não é convidado a acompanhar acontecimentos, mas a habitar uma consciência que, por um instante insuportável, vê demais. O céu ameaçador, os restos do verão queimado, os gafanhotos — tudo já indica um mundo posterior à devastação, como se a experiência humana começasse sempre depois da catástrofe.
O gesto decisivo, porém, é a visão do tempo inteiro passando de uma só vez pelo mesmo ramo de acácia. Não se trata de uma metáfora de passagem ou de renovação, mas de um colapso da duração. Primavera, verão, outono e inverno deixam de ser promessas sucessivas e tornam‑se um único movimento circular, fechado, irônico. O tempo, aqui, não conduz: ele graceja. Zomba da expectativa humana de progresso, aprendizado ou retorno. Na esfera imóvel da eternidade, tudo já ocorreu; o drama é apenas a ilusão de que ainda se caminha.
Essa percepção dissolve qualquer possibilidade de transcendência. Quando o texto menciona “alturas”, elas não são conquistas reais, mas construções frágeis, logo falseadas. A elevação espiritual, moral ou racional aparece como um artifício desesperado para suportar o peso da repetição. A loucura não surge como ruptura, mas como consequência lógica: ver a estrutura do tempo sem véus é incompatível com a sanidade. Não se enlouquece por excesso de imaginação, mas por excesso de clareza.
O corpo, então, entra em cena como lugar dessa condenação. O berço, o crucifixo e o caixão formam uma linha única, indivisível, que resume a existência humana num gesto contínuo de exposição e sofrimento. Não há heroísmo nesse percurso. O corpo se debate sem ornamentos, sem condecorações, privado de qualquer narrativa redentora. A nudez final não é apenas física; é ontológica. Morre‑se despido de sentido.
Ao redor, a sociedade persiste, indiferente. Os lavadores de mortos e os coureiros não são figuras cruéis; são funções. Representam a continuidade automática do mundo, que não interrompe seu ritmo para lamentar a perda de um indivíduo. O riso que os acompanha não é escárnio pessoal, mas a expressão de um sistema que não reconhece singularidades. O mundo não precisa ser mau para ser insuportável — basta que continue.
A final, o texto revela sua acusação mais dura: a esperança. A vida é apresentada como um jogo viciado desde antes do primeiro lance. Não se trata de erro de cálculo ou má escolha, mas de uma trapaça estrutural. A última arma roubada não é a força, nem a fé, nem mesmo a vida — é a esperança de retorno, a crença num caminho de casa. Esse “lar” nunca existiu fora da promessa. A esperança, longe de consolar, prolonga o engano até o último instante.
O que resta, então, não é desespero ruidoso, mas uma lucidez seca, quase mineral. O texto não pede compaixão, não oferece lições, não propõe resistência. Limita‑se a afirmar que compreender a condição humana é, ao mesmo tempo, o gesto mais honesto e o mais devastador. Não há saída, mas há consciência — e ela pesa.
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