Quem sabe…

Ontem, retornei de uma viagem rápida à Europa: doze dias apenas — pois é sempre pouco tempo para se visitar o Velho Continente.

Eu e minha esposa passamos por Lisboa, Paris e Madrid. Cidades lindas.

Eu acredito que seja normal um certo deslumbre nestes e outros lugares europeus, pois sempre fico admirado das coisas por lá.

Eu já pensei que pode haver nesse tipo de sentimento algo de semelhante a uma admiração paternal — doentia no caso.

Em certa medida, eu considero que passear pela Europa seja como a visita de um filho que foi explorado, abusado pelo pai e renegado por ele; figura “relevante” na sociedade, e sob a qual o filho, doentiamente, mantenha uma torta admiração e ainda se deslumbre diante da irreal imagem paternal.

Eu, por lá, me pego boquiaberto diante da arquitetura, por exemplo, e de outras tantas formas de expressões artísticas; como a pintura, escultura, literatura, música etc.

Diante de tantas belezas, quase me esqueço dos males sofridos na pele, na alma e no coração.

Apenas para citar um “pequeno” exemplo da exploração sofrida: há na escadaria de entrada do Museu de História Natural de Paris, no Jardin des Plantes, um bloco de 4 toneladas de quartzo preto, originário de Vitória da Conquista, BA, que por algum motivo foi parar naquela terra galesa. Então diante de visões assim, o encantamento — palavra que me parece bem delineada para este contexto —, quase me esqueço que aquilo foi tirado de mim.

E de repente, a gente começa a se perguntar o que daquele lugar era de outrem… E eu apenas falei de uma “pedrinha” de quartzo que está lá na França, nem falei de esmeraldas, diamantes, cobre, prata e ouro; muito ouro explorado pelo pai português e espalhado pela Europa.

Há também os móveis em pau-brasil, que lá vemos, e que não rangem por cá…

E se não bastasse tanto trauma paterno, vez em sempre, alguma notícia nos machuca ainda mais. Nesta semana, foram duas que se conversam e que me pegaram na dor: uma criança, um menino (José Lucas) de 9 anos, filho de imigrantes brasileiros que vivem em Lisboa, teve seus dedos decepados após sofrer mais uma ação violenta de bullying e xenofobia na escola. A outra notícia foi a da declaração — que me soou fascista — do chanceler alemão Friedrich Merz, que ao se referir a sua estadia na COP30, disse estar contente em ter partido da cidade amazônica de Belém, PA, numa comparação depreciativa do Brasil em relação à Alemanha.

Esta relação de pai e filho; explorador e explorado, abusador e abusado, ainda persiste em vários aspectos, camadas. Quem sabe algum dia se cure, quem sabe, nunca

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